quinta-feira, novembro 13, 2003

1.Amêndoas

Vi-te. Eras toda caracóis e olhos. Ambos castanhos. Foste-me apresentada por um amigo comum e ficámos toda a tarde na esplanada à beira-rio a falarmos. Rias imenso. Como uma menina que também eras. Cada palavra tua trazia consigo imagens que nos libertava a imaginação. Gesticulavas imenso. Em suma, falavas com todo o teu corpo e com todo o teu espírito. Enquanto os teus olhos castanhos de amêndoa continuavam parados, fixos no distante horizonte.
Ao despedirmo-nos, não resisti a perguntar-te:
- Olhos de amêndoa doce ou amarga?
- Já foram doces, respondeste-me tu.
E eu sorri. E quis falar. E quis conhecer ainda mais esses teus olhos...

terça-feira, novembro 11, 2003

não era suposto escrever mais hoje...

Mas há desejos maiores, fortes que nos transportam para lá de nós mesmos. Este foi um deles. Escrever sem destino e se calhar sem sequer ter um sentido, como caminhar por uma praia deserta. Na mais pura das solidões, acompanhada apenas pela lua.
Ao caminhar, enterro os meus pés nas palavras e deixo-me acariciar pelas ondas que procuram, insistentemente, os meus pés. Ondas magnéticas que me trazem de volta as emoções, que escorrem pelos meus dedos e me permitem estar aqui a teclar, sem nada para dizer, a não ser que gosto de estar aqui... a enterrar-me nas palavras e a ser levada pelas emoções. As minhas ou as vossas?

Esqueço-me

de mim, quase sempre. Mas ontem foi de ti que me esqueci. De pensar em ti. Em nós. No que não aconteceu e no que gostaria que tivesse acontecido. Em como seria se os nossos lábios se voltassem a tocar, ou se eu me pudesse deixar enterrar nos segredos dos teus olhos. Ontem esqueci-me de tudo isso. O que é muito bom. Talvez amanhã te acabe de esquecer. Talvez amanhã, olhar para ti deixe de doer. Talvez.

Almas...

Daqui, deste lugar onde ninguém me vê, digo-te que sim, que escrevo com alma. Escrever da forma como escrevo é perigoso. Corre-se o risco de ficar demasiado
exposto e vulneravél perante os outros. E, ao reler, muitos dos meus textos,
comovo-me e sinto-me nua perante vocês. Mas assim é a única forma que sei
escrever. É também a única formúla que conheço para viver. Duvido que seja a
mais acertada, mas de momento é a única que consigo seguir: ser eu mesma.
Sem máscaras. Sem mentiras. Sem jogos inúteis.
Não sei agradar. Não sei vender o meu peixe. Sei ser eu, quando me o permitem.

sábado, novembro 08, 2003

Por vezes...

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos."

David Mourão- Ferreira

Porque por vezes são os ecos deste poema que me acordam.
Para o sonho.
Para a vida.
Para as lágrimas.
Porque por vezes ainda dependo destes ecos para viver...

sexta-feira, novembro 07, 2003

A mulher...


Gala Nude from Behind, Looking in an Invisible Mirror, Salvador Dali,1960

Adoro este quadro de Dali. Porque é no silêncio deste quadro que as palavras
perdem todo o sentido e o amor adquire as suas verdadeiras tonalidades.
A nu. Numa cama qualquer. Uma mulher. E um homem.
Que a vê, a ama e a pinta. Que mais se pode dizer perante isto?

quinta-feira, novembro 06, 2003

Tão bonita...

“Tão bonita, estás tão bonita hoje”.A música entra no ouvido e lá fica a frase na cabeça a martelar continuamente. Linda. Simples, discreta, quase sem maquilhagem, quase sem acessórios. Altiva. Bonita. Tão bonita, como na música.
O espelho devolve-lhe a imagem dessa beleza etérea, vaga e suspensa por suspiros mediante a eterna insatisfação de si mesma. O som da música invade-a. O corpo aceitou a melodia e os seus passos acompanham o compasso. Não há nada a fazer. Incrivelmente vaidosa. É um pecado. Sabe-o bem... mas hoje, só hoje... permite-se sentir-se assim. Bonita...
Sozinha também. À espera. Prometeu vir buscá-la há mais de duas horas atrás e está atrasado. Chegará cheio de desculpas inventadas à pressão e um ramo de rosas na outra mão mão, ela adivinha. Foi já assim tantas vezes. E ela conhece-o tão bem! Talvez por isso, hoje ela quer, desesperadamente, que ele chegue mais depressa. Para beleza que hoje a inundou não fuja ou se quebre. Ela quer que ele veja a onda de luz que se apoderou dela e ouça no eco dos seus beijos, a canção que lhe martela os ouvidos: “Tão bonita, estás tão bonita hoje”.
Ele não vem. Não costuma atrasar-se tanto. Virá? Os olhos começam-se a fechar com o cansaço. A beleza ameaça fugir. A maquilhagem esborrata-se pela face e o lindo vestido amorrata-se e rasga-se. “Tão bonita, estás tão bonita hoje”. A música, refrão repetido vezes sem conta no gira-discos e as olhadelas ao espelho, começam a perder todo o sentido. Que sentido tem a beleza, se ninguém além de nós, a puder ver? Para ela, ser bonita só fazia sentido para ela em primeiro lugar e depois para ele. “Tão bonita, estás tão bonita hoje”.
Agora já não é bonita. Porque ele já não vem. Contudo soam ainda os acordes da música e a letra continua no ouvido como se se tratasse de uma lenga-lenga, que de repente num acidente estúpido na estrada, se transformou numa marcha fúnebre. “Tão bonita, estás tão bonita hoje”.

terça-feira, novembro 04, 2003

Não, Amor, não.

Fala-me de tudo o que quiseres. Mas peço-te. Imploro-te, não me fales de amor. Fala-me de paixão, aventura e loucuras. Amor, não. Não me fales de amor, de partilha, de carinho. Podes-me falar de prazer, de carne e de calor. Jamais de amor. Proíbo-te. Não quero silêncios ou promessas. Juras ou compromissos. Futuros ou passados. Quero-te só aqui. Não, lá fora, com toda aquela gente a olhar-nos e a inventar-nos sentimentos.
Sem sombras nos olhos. Sem medo de amanhã ao acordar, não te ver. Sem medo de te tocar e não encontrar em ti, o que sempre encontrei. É este o medo. São estas as sombras que não quero ter. Sem perguntas desnecessárias, justifico-me. Sim, houve alguém antes. Se ficas mais descansado, dir-te-ei que sim, que esse alguém me fez mal, só assim compreendes que a culpa não é tua, e que não podes tentar-me convencer a falar, a querer falar de amor.
Não sei porque preferes as mãos dadas num jardim, quando podes ter o meu corpo junto ao teu numa qualquer cama, não entendo o teu gosto em sair a meio da tarde para me levar a um restaurante romântico e, no fim, dares-me um anel e declaraste eterno. Eu sei, tu sabes, todos sabem, a eternidade acaba num qualquer momento. Não te quero eterno. Não tanto tempo, não quero incorporar o teu cheiro no meu corpo. Não quero ser a tua princesa, nem quero que tu, o meu encantado príncipe, me salve das muralhas da solidão. São obra minha. Não do anterior alguém, o qual culpas por todos os “azares” da nossa relação.
Esse, só me embebedou com uma bebida doce, que engoli num só gole. Juntou amor, paixão e loucura. Noites, luas, mãos dadas nos jardins, promessas, juras, anéis e restaurantes. Porém, a verdadeira essência da bebida estava escondida, o poderoso álcool, só o descobri no fim, quando a doçura se transformou em amargura. Não, amor, não. Não me fales de amor. Tapo os ouvidos e esqueço-me de que falas. Tarde ou cedo, calar-te-ás. Espera, podes continuar. Não espero por nenhum amor. Tenho a eternidade para te ouvir.

Não sei se sabes, nem sei se é importante dizer, mas aqui vai: amo-te...

domingo, novembro 02, 2003

É bom falar contigo...

mesmo quando me relembras o que é sentir emoções e desejos que estou proibida de sentir. Porque me fecho. Porque me faço de esquecida. Lá fora há um mundo de impulsos magnéticos que empurram as pessoas umas contra as outras. A mim empurram-me para aqui. Para a escrita. Mas é bom falar contigo. Por mais injusto que seja relembrares-me aquilo que ainda não posso viver.

Nada

Apenas isso. Nada. Vejo-te e não sinto. Caminho pela rua, bebo, fumo, converso, rio. E nada. Não sinto nada. Só uma dormência interior. Como se eu não fizesse parte do que me rodeia. Como se o silêncio atroz que pôs fim às nossas conversas, fosse frio e tivesse acabado por congelar as emoções e até os mais primitivos desejos. Hoje acho que é apenas isso, não me sinto. Por quanto tempo ficarei assim? No nada?