Acho que não há o momento certo para um beijo. Pelo menos nunca haveria para o nosso. Porque o tempo é um inimigo traiçoeiro que nos ilude ao transmitir uma noção de segurança.
Mas não foi segurança que me levou a querer beijar-te. Foi o tempo. A sensação de que o tempo que eu deveria esperar não passava e eu queria-te cada vez mais. E tinha de te ter. Provar o sabor dos teus lábios e sentir o para lá desses olhos. Tão amargos na expressão e tão doces na minha imaginção.
sábado, novembro 15, 2003
quinta-feira, novembro 13, 2003
continua...
A história das amêndoasvai continuar.Mas por hoje fico-me por aqui. Imaginem também vocês a continuação.
2. Amêndoas
Passámos imensas tardes nessa e noutras esplanadas á beira rio. E os teus olhos sempre postos no horizonte.
Sou homem por isso não nego o desejo que sentia por ti. Abraçar-te, aquecer a tua pele com a minha, tomar-te nos braços contra uma cama e sugar a força com que vivias cada momento e a intensidade com que falavas.
Mas mais do que tudo isso queria penetrar nos teus olhos, descobrir-lhes a alma. O riso e as lágrimas que escondeste sempre.
Arriscava tudo. Mesmo sem adivinhar quais eram os riscos. Porque te queria...
Sou homem por isso não nego o desejo que sentia por ti. Abraçar-te, aquecer a tua pele com a minha, tomar-te nos braços contra uma cama e sugar a força com que vivias cada momento e a intensidade com que falavas.
Mas mais do que tudo isso queria penetrar nos teus olhos, descobrir-lhes a alma. O riso e as lágrimas que escondeste sempre.
Arriscava tudo. Mesmo sem adivinhar quais eram os riscos. Porque te queria...
1.Amêndoas
Vi-te. Eras toda caracóis e olhos. Ambos castanhos. Foste-me apresentada por um amigo comum e ficámos toda a tarde na esplanada à beira-rio a falarmos. Rias imenso. Como uma menina que também eras. Cada palavra tua trazia consigo imagens que nos libertava a imaginação. Gesticulavas imenso. Em suma, falavas com todo o teu corpo e com todo o teu espírito. Enquanto os teus olhos castanhos de amêndoa continuavam parados, fixos no distante horizonte.
Ao despedirmo-nos, não resisti a perguntar-te:
- Olhos de amêndoa doce ou amarga?
- Já foram doces, respondeste-me tu.
E eu sorri. E quis falar. E quis conhecer ainda mais esses teus olhos...
Ao despedirmo-nos, não resisti a perguntar-te:
- Olhos de amêndoa doce ou amarga?
- Já foram doces, respondeste-me tu.
E eu sorri. E quis falar. E quis conhecer ainda mais esses teus olhos...
terça-feira, novembro 11, 2003
não era suposto escrever mais hoje...
Mas há desejos maiores, fortes que nos transportam para lá de nós mesmos. Este foi um deles. Escrever sem destino e se calhar sem sequer ter um sentido, como caminhar por uma praia deserta. Na mais pura das solidões, acompanhada apenas pela lua.
Ao caminhar, enterro os meus pés nas palavras e deixo-me acariciar pelas ondas que procuram, insistentemente, os meus pés. Ondas magnéticas que me trazem de volta as emoções, que escorrem pelos meus dedos e me permitem estar aqui a teclar, sem nada para dizer, a não ser que gosto de estar aqui... a enterrar-me nas palavras e a ser levada pelas emoções. As minhas ou as vossas?
Ao caminhar, enterro os meus pés nas palavras e deixo-me acariciar pelas ondas que procuram, insistentemente, os meus pés. Ondas magnéticas que me trazem de volta as emoções, que escorrem pelos meus dedos e me permitem estar aqui a teclar, sem nada para dizer, a não ser que gosto de estar aqui... a enterrar-me nas palavras e a ser levada pelas emoções. As minhas ou as vossas?
Esqueço-me
de mim, quase sempre. Mas ontem foi de ti que me esqueci. De pensar em ti. Em nós. No que não aconteceu e no que gostaria que tivesse acontecido. Em como seria se os nossos lábios se voltassem a tocar, ou se eu me pudesse deixar enterrar nos segredos dos teus olhos. Ontem esqueci-me de tudo isso. O que é muito bom. Talvez amanhã te acabe de esquecer. Talvez amanhã, olhar para ti deixe de doer. Talvez.
Almas...
Daqui, deste lugar onde ninguém me vê, digo-te que sim, que escrevo com alma. Escrever da forma como escrevo é perigoso. Corre-se o risco de ficar demasiado
exposto e vulneravél perante os outros. E, ao reler, muitos dos meus textos,
comovo-me e sinto-me nua perante vocês. Mas assim é a única forma que sei
escrever. É também a única formúla que conheço para viver. Duvido que seja a
mais acertada, mas de momento é a única que consigo seguir: ser eu mesma.
Sem máscaras. Sem mentiras. Sem jogos inúteis.
Não sei agradar. Não sei vender o meu peixe. Sei ser eu, quando me o permitem.
exposto e vulneravél perante os outros. E, ao reler, muitos dos meus textos,
comovo-me e sinto-me nua perante vocês. Mas assim é a única forma que sei
escrever. É também a única formúla que conheço para viver. Duvido que seja a
mais acertada, mas de momento é a única que consigo seguir: ser eu mesma.
Sem máscaras. Sem mentiras. Sem jogos inúteis.
Não sei agradar. Não sei vender o meu peixe. Sei ser eu, quando me o permitem.
sábado, novembro 08, 2003
Por vezes...
"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos."
David Mourão- Ferreira
Porque por vezes são os ecos deste poema que me acordam.
Para o sonho.
Para a vida.
Para as lágrimas.
Porque por vezes ainda dependo destes ecos para viver...
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos."
David Mourão- Ferreira
Porque por vezes são os ecos deste poema que me acordam.
Para o sonho.
Para a vida.
Para as lágrimas.
Porque por vezes ainda dependo destes ecos para viver...
Publicada por
Rute Coelho
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sábado, novembro 08, 2003
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sexta-feira, novembro 07, 2003
A mulher...
Gala Nude from Behind, Looking in an Invisible Mirror, Salvador Dali,1960
Adoro este quadro de Dali. Porque é no silêncio deste quadro que as palavras
perdem todo o sentido e o amor adquire as suas verdadeiras tonalidades.
A nu. Numa cama qualquer. Uma mulher. E um homem.
Que a vê, a ama e a pinta. Que mais se pode dizer perante isto?
quinta-feira, novembro 06, 2003
Tão bonita...
“Tão bonita, estás tão bonita hoje”.A música entra no ouvido e lá fica a frase na cabeça a martelar continuamente. Linda. Simples, discreta, quase sem maquilhagem, quase sem acessórios. Altiva. Bonita. Tão bonita, como na música.
O espelho devolve-lhe a imagem dessa beleza etérea, vaga e suspensa por suspiros mediante a eterna insatisfação de si mesma. O som da música invade-a. O corpo aceitou a melodia e os seus passos acompanham o compasso. Não há nada a fazer. Incrivelmente vaidosa. É um pecado. Sabe-o bem... mas hoje, só hoje... permite-se sentir-se assim. Bonita...
Sozinha também. À espera. Prometeu vir buscá-la há mais de duas horas atrás e está atrasado. Chegará cheio de desculpas inventadas à pressão e um ramo de rosas na outra mão mão, ela adivinha. Foi já assim tantas vezes. E ela conhece-o tão bem! Talvez por isso, hoje ela quer, desesperadamente, que ele chegue mais depressa. Para beleza que hoje a inundou não fuja ou se quebre. Ela quer que ele veja a onda de luz que se apoderou dela e ouça no eco dos seus beijos, a canção que lhe martela os ouvidos: “Tão bonita, estás tão bonita hoje”.
Ele não vem. Não costuma atrasar-se tanto. Virá? Os olhos começam-se a fechar com o cansaço. A beleza ameaça fugir. A maquilhagem esborrata-se pela face e o lindo vestido amorrata-se e rasga-se. “Tão bonita, estás tão bonita hoje”. A música, refrão repetido vezes sem conta no gira-discos e as olhadelas ao espelho, começam a perder todo o sentido. Que sentido tem a beleza, se ninguém além de nós, a puder ver? Para ela, ser bonita só fazia sentido para ela em primeiro lugar e depois para ele. “Tão bonita, estás tão bonita hoje”.
Agora já não é bonita. Porque ele já não vem. Contudo soam ainda os acordes da música e a letra continua no ouvido como se se tratasse de uma lenga-lenga, que de repente num acidente estúpido na estrada, se transformou numa marcha fúnebre. “Tão bonita, estás tão bonita hoje”.
O espelho devolve-lhe a imagem dessa beleza etérea, vaga e suspensa por suspiros mediante a eterna insatisfação de si mesma. O som da música invade-a. O corpo aceitou a melodia e os seus passos acompanham o compasso. Não há nada a fazer. Incrivelmente vaidosa. É um pecado. Sabe-o bem... mas hoje, só hoje... permite-se sentir-se assim. Bonita...
Sozinha também. À espera. Prometeu vir buscá-la há mais de duas horas atrás e está atrasado. Chegará cheio de desculpas inventadas à pressão e um ramo de rosas na outra mão mão, ela adivinha. Foi já assim tantas vezes. E ela conhece-o tão bem! Talvez por isso, hoje ela quer, desesperadamente, que ele chegue mais depressa. Para beleza que hoje a inundou não fuja ou se quebre. Ela quer que ele veja a onda de luz que se apoderou dela e ouça no eco dos seus beijos, a canção que lhe martela os ouvidos: “Tão bonita, estás tão bonita hoje”.
Ele não vem. Não costuma atrasar-se tanto. Virá? Os olhos começam-se a fechar com o cansaço. A beleza ameaça fugir. A maquilhagem esborrata-se pela face e o lindo vestido amorrata-se e rasga-se. “Tão bonita, estás tão bonita hoje”. A música, refrão repetido vezes sem conta no gira-discos e as olhadelas ao espelho, começam a perder todo o sentido. Que sentido tem a beleza, se ninguém além de nós, a puder ver? Para ela, ser bonita só fazia sentido para ela em primeiro lugar e depois para ele. “Tão bonita, estás tão bonita hoje”.
Agora já não é bonita. Porque ele já não vem. Contudo soam ainda os acordes da música e a letra continua no ouvido como se se tratasse de uma lenga-lenga, que de repente num acidente estúpido na estrada, se transformou numa marcha fúnebre. “Tão bonita, estás tão bonita hoje”.
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