sexta-feira, novembro 21, 2003

Solidões...

Dizem que a paixão o conheceu

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos
Al Berto

quinta-feira, novembro 20, 2003

Desculpa

não te posso conceder esse desejo. Hoje voltar a escrever iria ser uma seca para quem está desse lado. porque iria escrever sobre ti, que me lês avidamente, que me fazes corar como ninguém, que vampirizas os meus pensamentos e que relembras como é bom sentir-nos acompanhados num mundo onde andamos cada vez mais sós.
Além disso não seria um texto deprimente, porque tu fazes-me bem. Não haveria lágrimas, nem tristezas para descrever, nem zangas com o mundo, ou memórias para acabar de esquecer. Só palavras que enchem imensas frases com que nos vestimos e despimos mutuamente.
Voltar a escrever hoje seria isto. Que achas? Ainda manténs esse desejo?

palavras e vozes

Ainda não acredito que existas. Desculpa. Mesmo depois de tantas palavras que já¡ me escreveste e que começaram por acaso. Acredito que não devas ser real. Não há pessoas assim.
E depois, estes encontros são feitos disto: de palavras... que falam de poeiras suspensas que pairam no ar. Poeiras que ninguém parece ver. Tal é a pressa de passar pelas coisas, pela vida. Por isso repito: não acredito que existas, que consigas ver e sentir estas poeiras. Já não há pessoas assim, disseram-me um dia. E eu fingi acreditar.
Ouvir a "Voz" foi mais um passo para essa irrealidade que já me acostumaste. E se sempre quis que a nossa realidade fosse apenas virtual e o nosso universo apenas a blogoesfera, agora começo a desejar uma outra realidade.
Não adivinho o futuro. Nem faço projectos. Nem deixo a imaginação voar mais. Fico-me por aqui, nesta nossa realidade feita de palavras e de vozes que se cruzam em espaços desconhecidos. Não sei se és real. Se existes para alguém destas vozes e palavras cheias de mistérios para descobrir.
Agora somos dois em busca da aventura. Três, se contarmos com o Indiana Jones que nos ajudará a percorrer as trilhas mais dí­ficeis e a evitar armadilhas.
Alinhas na aventura?

Doenças...

«Hoje tu nãos estás doente. Nós nunca estamos doentes. Por vezes sentimos no corpo agressões que desconhecemos. Por vezes com forma, outras apenas essência. Sentimo-nos mal quando atacados por formas com corpo. Que mais não nos fazem do que atiçar o fogo da essência que nos arde na mente» Ink
Leio-te e releio-te com a avidez do costume. Habituas-me mal com os teus comentários...
Hoje, ao ler-te ficam muito poucas palavras para dizer. Ficam entaladas na garganta que seca a cada palavra. Por isso já não falo. Nem escrevo. Deito-me á sombra da bananeira, colhendo os louros da cor que dás a este blog com as tuas palavras.

terça-feira, novembro 18, 2003

Eu e só eu...

Danem-se as convenções, o que deveria ser, as leis e as normas sociais. Hoje não me apetece cumprir o papel de amiga boazinha. Hoje e só hoje, permito-me mandar o mundo á fava. E dizer que estou mal, zangada. Contigo que não tens culpa e passas por mim na rua e nem sequer me olhas. Ou com os outros, os que verdadeiramente têm culpa, mas não sabem. Ou com aqueles que sabem que têm culpa e estão-se nas tintas para como me sinto. Resumindo: hoje e só hoje estou farta do mundo.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Porquê?

Porque escrevo assim? Porque é assim que as palavras acontecem na minha cabeça. Porque é assim que os sentimentos fluem dentro de mim. Porque é este filtro invisivél que me toma de assalto e transforma a realidade em qualquer outra coisa. Talvez ainda mais deprimente. Mas mais minha. E ainda mais íntima.
Conheces-me a sorrir com os lábios. Por vezes até com um certo brilho no olhar. Mas esses estados de alma não impedem este outro que é a falta de um luar dentro de mim.
Chega de respostas e explicações. Escrevo assim. Sou assim...
Gostas?

Palavras...

Olho-me ao espelho enquanto converso contigo. Por vezes as tuas palavras são as minhas. Fallas-me de coisas que conheço de cor e de outras que me permitem fechar os olhos e voar. Viajar para além deste presente castrador em que mal te posso tocar e menos ainda confessar o quanto te quero. O quanto és importante. E, sim,isto é uma declaração de amor. Que sei, que nunca irás ler. Por isso me atrevo a fazê-la.
Confessas-me que te custa ler-me... porque te toca demasiado. Porque tens medo das minhas palavras, onde acabas sempre por te encontrar. Mesmo que não queiras e que passes a vida a fugir delas.
São só palavras. As minhas. As tuas. E nunca as nossas...

sábado, novembro 15, 2003

Pequenos Nadas

Este texto não foi escrito por mim, mas antes por um AMIGO. É por isso, um sentido tributo à amizade. E ao amor. Esses pequenos nadas que nos juntaram e agora nos unem.

A Ti afilhada
Para o teu blog, se achares merecedor disso.

Estava eu sentado na mesa, em casa da minha afilhada Maria da Lua, afilhada de faculdade, entenda-se, a beber o café que esperava que me fizesse acordar do vinho, quando disse:
- Um dia hei-de escrever um livro chamado: “pequenos nadas”! E todos se riram de mim, ninguém sabe o que são pequenos nadas, pelo menos os meus...

Sting falava comigo da distante aparelhagem que ecoava do fundo da sala: “ If he loved you like I love you... prontamente pedi um momento para mim, para me entregar a memórias e a sentimentos antigos, como é óbvio, ninguém respeitou.
- Esta faz-me recordar alguém! Chama-se .............! - no entanto mentia, mentia com todos os dentes que tinha na boca, não me fazia lembrar ninguém, apenas me despertava para o sentimento de vazio que nos consome quando somos eternamente apaixonados e não temos ninguém que mereça tal partilha... Amar é, acima de tudo, partilhar, se tal não existir, não passa de um sentimento egoísta de possuir alguém para nosso puro prazer. ( Sim, ponto final. Não há grande teoria sobre isto que não redunde em fracasso, quem pensar o contrario é louco, ou está simplesmente unilateralmente apaixonado.)
Lembrei-me de todas as gajas que fodi e continuo a foder e nunca gostei, de todas aquelas que amei e nem me atrevi a entrar de tão sagradas serem, e por final, de todas aquelas com quem partilhei a minha breve existência e nunca me mereceram tocar..
- Jorge, lembrei-me agora! Também penteias os pelos púbicos quando tomas banho?- perguntou um outro amigo nosso
- Claro!- respondi, prontamente.
- Que raio de conversa!, disse a Maria da Lua ... porque fazem isso...?
- Porquê? Não puxas os teus para cima também, quando estás no duche?
- Como é que sabes isso?
- Todos fazemos isso!
Pequenos nadas, que me hei-de recordar para sempre, momentos eternos na sua pequenez. Somos demasiadamente iguais às vezes para não saber o que o parceiro do lado pensa, e mesmo assim perdemos tempo a mais a perscrutar a origem do silêncio, em busca do nada. Enfim! Em busca de nós próprios...
Reticências a mais para um texto que se procura profundo, típico de quem escreve a negrito...
Pequenos nadas, pequenos pedaços de mim que ficam por onde vagueio, laivos de cheiro que não chegam a ser perfume. Ai! Como eu adoro cheirar!


Jorge Barros

Algures num dia de insónia, daqueles que nunca me hei-de lembrar, mas que para sempre hão de ficar cravados em mim.”

5. Amêndoas

Agora que aqui estás no meu colo, nem acredito. Os meus dedos passeiam pelos teus braços e de vez em quando deixam-se enrolar nos teus dedos. E ficamos assim. Presos e felizes. Em noites e em dias.
Deixei que o tempo passasse sobre nós. E tu aprendeste a confiar. E eu aprendi a esperar.
Vejo o brilho nos teus olhos e sei-o adivinho-o. Agora são olhos de amêndoas doce. Porque um dia já foram amargas. Mas isso é apenas um passado distante.
- Olhos de amêndoa doce ou amargas?
- Doces... - respondeste-me tu.

4. Amêndoas

e o beijo traiu-me. Ficaste a olhar-me espantada. Como se aquele beijo te tivesse violado. E violou, explicaste-me mais tarde quando as lágrimas assomaram ao teu rosto e me falaste de um pai, de marcas de cigarro no corpo, de palavras e de abusos, de segredos e mentiras silenciados pelos anos.
Nesse instante percebi porque é que os teus olhos já não eram amêndoas doces. "já foram", como me garantiras tu.
Numa confusão de sentimentos, acabei também por te odiar. Porque raio haverias de ter tu, um passado tão traumático, tão cheio de fantasmas e de feridas? Porquê é que não poderias ser uma mulher entre tantas outras? E ainda mais, porque raio apesar disso tudo, eu continuo a querer-te?