quarta-feira, dezembro 10, 2003

precisa-se

urgente. uma direcção, um destino. um mapa. uma bússola, um palavra. um beijo. um abraço, um corpo onde aportar. um vento que me abane fortemente, uma rede de trapezista onde seja seguro cair. precisa-se e é urgente.

fugir

fugir. deixar que o tempo passe por mim e apague as dores e as mágoas e as lembranças. ficar vazia, sem pensamentos. por um dia. por um mês. um ano. morrer depressa. apagar os vestígios de mim no mundo. um dia renascer. menos deprimente. menos cansada. com mais energia. menos entrega. menos paixão. menos eu. fugir. enterrar-me num pedaço de papel e voar com o vento para qualquer lugar. longe daqui, longe de mim. fugir. reinventar-me no corpo de alguém. sem promessas. sem futuro.sem vergonha. sem passado. sem presente. só o minuto do calor dos corpos e do cheiro que fica sempre no ar. fugir. escapar-me entre os meus dedos que procuravam afincadamente outros dedos em que se pudessem encaixar. fugir. de mim.

quinta-feira, dezembro 04, 2003

Ar...

"Entre uma sonho que me aviva a alma, entre um desejo que me inunda o corpo, por entre frases, palavras, gestos mimicos, que me denunciam perante a tua imagem. Arriscava tudo.Mesmo sem advinhar quais eram os riscos. Porque te quero.
Não percebes? És o meu ar... "

Ink


Este é apenas um fragmento que lançaste ao vento e que li, reli e não deixei que o teu tempo apagasse. Conservo-o em mim porque também eu "arriscava tudo. Mesmo sem advinhar quais eram os riscos." Tenho vontade de arriscar. Mas não sei se posso. Não sei se há espaço para arriscar. Responde-me tu. Há?

quarta-feira, dezembro 03, 2003

em sangue

com dedos magoados, com asas feridas, voz toldada e um sorriso nos olhos te digo que voltei. ainda em sangue, de chagas abertas. débil e ainda triste. Mas voltei, estou a voltar... a mim.

A Gaivota

Foi com este conto que nasceu a Maria da Lua. Tinha 15 anos quando o escrevi. Apesar do tempo que separa o presente desse passado, ele ainda continua actual e eu ainda continuo a identificar-me com ele. Por isso decidi publicá-lo hoje aqui. Espero que gostem...

Gaivota

Como te prometi, regressei. Perdoa o tempo que demorei. É verdade, perdi o medo, perdi o medo de regressar. Voltei. Vivo agora das memórias. Das tuas memórias e das nossas... Desço as escadas até à praia. Redescubro os nossos mil lugares. O sol mergulhou inteiro na linha do horizonte, na linha que os meus olhos alcançam. A linha que quiseste ultrapassar.
Enterro, ao caminhar, os pés na areia escaldante. Será que foi este vento que te arrastou? Será que foi nesta espuma que te transformaste? Será que estes grãos amarelados que piso são restos teus?
Tinha de ser aqui... tudo tinha de terminar aqui. Porquê?
Fixo os olhos na areia e no mar. Em tudo que resta das minhas lembranças desta praia. Não quero, mas... soltam-se lágrimas, lágrimas que nunca chorei, lágrimas que nunca mereceste... lágrimas que só tu poderias abafar.
Mas estás longe. Longe, apenas longe. Ainda existes? E que diferença faria isso hoje? Estás longe... é apenas isso que me magoa.
Olho o céu que perdeu o calor do sol e ganhou as cores da harmonia, da perfeição. Dezenas de aves esvoaçam pelos céus, céus que um dia quiseste alcançar.
Uma gaivota pousa na duna: na nossa duna. Quieta, olha tudo o que a rodeia. Parte. Atravessa os céus. Já só a distingo pela mancha cinzenta que se confunde com a escuridão da noite. E a gaivota voa... voa... Voas...?
Volto para a antiga casa. Talvez adormeça a ouvir os sons da escuridão, talvez a lua ilumine o meu sono. Talvez amanhã te esqueça. Talvez amanhã...
É manhã. É cedo. O sol também acabou de acordar. Dormi bem, por estranho que te pareça. Hoje vou mesmo ter a certeza se perdi o medo. Vou nadar até à gruta.
Tenho medo de não conseguir, da dor ser mais forte. As lágrimas podem vencer as vagas do mar? Tenho medo, medo, medo de ter medo. Mas devo-te isso. Os medos ultrapassam-se... sempre?
Aproximo-me do mar. Tenho medo. Sempre o medo. Medo.
O contacto com a água provocou um arrepio que, rapidamente, se estendeu ao corpo todo. Mas não é o momento de recuar. Não agora. Nadei, passei os rochedos, ou o “Adamastor”, como lhe chamávamos. Tive, pela primeira vez, medo do mar. Engoli muita água, tanta que a garganta secou com o sal. Ali, também não havia necessidade de falar.
Alcancei a gruta depois de muito esforço. Senti-me extenuada e com muito medo. Muito medo do que iria encontrar. Fatigada, deixei-me cair nas réstias de algas secas e areia, que ali se encontravam. Fechei os olhos e, mais uma vez, tive medo. Medo de me perder. Encontrei o cofre. E agora...? Tenho medo...
Uma gaivota atravessa a gruta e pousa em cima do cofre. Quieta, olha tudo o que a rodeia. Parte, é livre de partir. É livre de voar. Como tu.
Durante instantes fixei o cofre. Não valia a pena abri-lo. Nem mesmo levá-lo. Era teu... era do mar. Ele que o levasse.
Abro o cofre. Choro. O búzio, a vieira preta, a estrela do mar e uma folha de caderno dobrada em dois. Ao aproximar o búzio do ouvido oiço vozes. Vozes indefinidas... a tua ou a do mar? Talvez apenas oiça a do meu coração. Talvez...
Cuidadosamente, pego na vieira preta. Foi a primeira relíquia do nosso cofre. A primeira concha que achei quando vim para aqui morar. Tem meses, séculos de memórias e histórias por contar.
A estrela do mar foi uma prenda tua, no primeiro aniversário da nossa amizade. Antes guardávamos também aqui as cartas que escrevíamos. Mas essas rasgaste-as ao vento...
Deixa-me ser cobarde uma vez mais e confessar-te que tenho medo. Medo de ver a folha do caderno. Medo, medo de me perder. A gaivota voltou...
Pousa mesmo a meu lado. É linda: cinzenta, com um bico longo. Envolve-a uma atmosfera de mistério. Parece que reconhece tudo isto, eu, as lágrimas, o cofre e este lugar.
Aproxima-se mais, toco-lhe medo. Não foge, não pica. Acaricio-lhe as penas com movimentos suaves com que ela se delicia. Afasta-se. Quieta, olha tudo o que a rodeia. Parte. Sempre.
Desdobrei a folha. Um desenho: o teu rosto, cortado por uma gaivota cinzenta... e uma pequeno texto, que li a medo:
“Matilde, se um dia conseguires, perdoa-me. E tenta... tenta ser feliz. Concretizarás esse sonho. Tua, para sempre...”
Ela descobrira a gaivota. Ela era a gaivota. Era a gaivota que, livremente, atravessava os céus. Era a gaivota que voava. Era livre.
Pertencia ao paraíso ambicionado, ao mar e ao vento. Pertencia à liberdade.
A gaivota pousara mais vez junto ao cofre. Fora o seu último voo. Deixou que eu lhe fizesse uma última carícia e fechou, para sempre, os olhos.
Morrera. Abandonei-a nas ondas do mar... juntar-se-à a ti, quando o sol mergulhar inteiro, na linha do horizonte...





terça-feira, dezembro 02, 2003

ao beijo

que não sinto, que só me chega como ecos de um tempo que nunca chegou a existir. ao beijo que já não sei receber, ao beijo que não passa de uma ilusão construída de palavras que me recuso a entender, ao beijo sem história, passado ou futuro. ao beijo que me rouba o presente e me leva por maus caminhos. ao beijo do desconhecido, do ausente, do desejo premente que me assalta de quando a quando, ao beijo que queria receber, ao beijo que é teu e no fundo tão meu, porque só existe assim: em palavras.
ao beijo que não existe... ao beijo que queria que existisse... enfim ao beijo... A todos beijos que este post dá vontade de dar.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

E imitando- o . Lisboa, porque sim. Com os seus loucos, os seus pobres e os seus bêbados, as suas prostitutas e as suas crianças abandonadas. Lisboa, porque sim, cheia de cimento e betão, de prédios espelhados e carros a perder de vista. Lisboa, porque sim, nos seus cantos e recantos, onde o olhar se prende e o encanto acontece. Na claridade de uma tarde soalheira, detentora de uma luz invejada, Lisboa, porque sim. Porque é a cidade que aprendi a amar entre as escadas rolantes de um centro comercial e as escadarias de Alfama. Lisboa, porque sim. Sem explicações.

Suicida-te amanhã

hoje ainda é cedo demais. Ainda não viveste tudo. Ainda não amaste tudo. Ainda não sofreste tudo. E sobretudo ainda não foste feliz como queres e como mereces. Ainda tens imensas páginas para preencheres com o teu lápis de carvão, algumas músicas para decorares, cantares e assasiná-las vezes sem conta ao meu ouvido. Muitas achas para arder na lareira nessas noites que ainda estão por acontecer.
Ouve-me. Lê-me:Hoje é cedo demais. Porque eu ainda estou aqui. Suicida-te amanhã...

Indecisões...

Para quem queria deixar este luar, arrumá-lo e dar-lhe outra pele, não é um prenúncio de despedida, pelo contrário é torná-lo mais confortavél para podermos ficar ainda mais tempo com ele. (Está melhor, não está?) Não sei se a intenção foi essa quando decidi andar a brincar com o template. Ainda não decidi se fico ou parto. Ainda não sei tantas coisas...