quarta-feira, abril 14, 2004

Incompletos e suspensos

Sei e tenho-o como uma verdade quase absoluta, dessas que provém apenas do coração que entre nós, não nem haverá mais do que isto. Estes momentos irrepetíveis em que toda eu tremo ao tocar o teu rosto. As minhas mãos percorrem os olhos fechados, constroem linhas imaginárias até ti. Linhas que nunca te chegam a alcançar.

Calas-te. Fechas os olhos. E o silêncio é o nosso. As palavras e os desejos emigraram para um qualquer lugar distante onde ficaram também os rótulos, as pessoas e tudo o resto que não faz parte de nós, mas que é parte integrante de mim e de ti. E que existe. Mas não hoje. Não agora.

Não preciso de confirmação. Isto somos nós. A música sai deste silêncio de palavras caladas, porque é de todo impossível confessar-te que talvez sejas tu, o tal. Aquele que me pode prender a uma realidade diferente. Tenho medo. Eu que sempre me orgulhei de não ter medo de nada. Tenho medo de ti. Medo de nós.

Medo das tremuras que sinto pelo corpo, medo da tua respiração acelerada, pelo ritmo das minhas mãos que te tocam em círculos lentos apenas pelo rosto, tocando levemente pelos lábios que nunca serão tocados pelos meus.

Assim sou eu. Assim somos nós. Num misto de certezas e de inseguranças, de carinho, de palavras e silêncios nessas madrugadas recheadas de tudo o que fica depois de um sorriso teu, de menino que apetece cuidar.

Mas não posso ser eu, pois não? Há um muro intransponível entre nós, feito de preconceitos, de ideais e de certezas que não podemos ultrapassar. Isso seria o caos, o qual acredito seria demasiado incontrolável para nós conseguirmos lidar.

Por isso fico por aqui. Por este espaço vazio. Por esta madrugada em que já te foste embora e te despediste como sempre, com um beijo na testa. Assim somos nós. Incompletos e suspensos

segunda-feira, abril 12, 2004

Intimidades...

As roupas que caiem no chão. Atabalhoadamente. Com pressa. E sem jeito. É sempre a primeira vez, mesmo para nós, que já andamos nisto há alguns anos. Agora estamos assim: nus perante o outro. E olhamo-nos. Cessa o desejo. Pára o desatino. O tempo queda-se. Afinal é isto a intimidade. Descobres-me as cicatrizes e desvendas-me as rugas, enquanto eu em ti, procuro os primeiros cabelos brancos, uma qualquer tatuagem feita numa noite de loucura e paixão. E de repente, as mãos substituem-se aos olhos. E nesse mesmo repente já pensamos saber tudo um do outro. Pelo menos o que interessa. Que cada corpo é um corpo diferente. Que é sempre a primeira vez que as roupas caiem no chão, é sempre a primeira noite em que se sai a meio da madrugada, sem fazer barulho para não acordar o outro. É sempre mais um engano. Um prazer delimitado.
E que importam essas considerações agora? O teu corpo chama pelo meu. Pede-lhe ainda mais pele, com ainda mais ardor. E já não penso. Sou incapaz de realizar qualquer operação que não seja beijar-te ou ter-te. Ou beijar-te novamente.
E olhar-te. Cada pedaço de pele és tu. E eu quero-te. Mesmo que saias no meio de muitas madrugadas. Numa hás-de ficar. A tua roupa ficará no chão. O teu corpo enrolado no meu e os teus beijos serão os meus comprimidos para dormir, o teu ressonar será a minha canção de embalar, a tua pele será a minha almofada. Afinal, a intimidade também é isto.

terça-feira, abril 06, 2004

Quando vens...

Vens. De braços abertos e desarmado, prometes tu. Vens com um sorriso inteiro que me abraça e me quer proteger. Dos outros e sobretudo de mim mesma. Dos meus medos. Que são muitos. Tantos que não te consigo enumerar. Ainda não te ganhei e já tenho medo de te perder.
Vens com a tranquilidade de um pôr-do-sol, prometes-me a noite, a madrugada, o dia, a vida inteira se for preciso. E enquanto vens e tornas a vir sempre com um sorriso eu fujo e tenho medo. Das armas que podes trazer escondidas, das mágoas que podem estar por vir, das feridas antigas que parecem nunca cicatrizar.
Vens com um beijo. Daqueles que não existem. Um roçar de lábios suave. A pele na pele. Lentamente. Vens e eu esqueço-me dos medos. De tudo. Esqueço-me das minhas defesas e dos meus enganos. Esqueço-me do que já fui. E só me lembro do que quero ser... contigo.

domingo, abril 04, 2004

Afinal

os sábios tinham razão. A lua cheia não se aguenta por muito tempo. A minha já começou a mingar. Quem sabe se não é melhor assim. Fechar as portas, enterrar palavras, esquecer nomes, rostos e gestos. Queimar lembranças. E voltar a sorrir depois das lágrimas terem todas secado.

lua cheia

Garantem-me os sábios que a lua não fica cheia por muito tempo. Que vai mingar com o tempo e que é assim também o amor e os estados de alma. Que há altos e baixos. Em tudo. Mas hoje, esqueço-me de todas essas garantias e suspendo o tempo numa lua cheia que quero guardar para sempre. Em ti.

sexta-feira, abril 02, 2004

Ainda não acredito

nas palavras que caiem em nós, nos beijos que acontecem sem querer, sem um motivo, uma razão, porque tem mesmo de acontecer, sem enhuma explicação... depois quando é o meu olhar que sustenta o teu, sempre fixado em mim à espera. Ainda não acredito que haja este tempo tão presente, que acho sempre que se enganaram e isto, este presente, não é para mim.
Pegas-me na mão e sussuras-me baixinho: gosto de ti. E nessa altura, acredito em tudo. Acredito em ti. E acredito neste presente...

quarta-feira, março 31, 2004

Caminhos



Por um caminho. Estranho. De terra batida e muito pouco conhecido. Foi nesse caminho que nos encontrámos e em que eu choquei contigo. Assim sem mais nem menos. Como toda a gente profetizou um dia " quando menos esperares, puf!, acontece!". E aconteceu. Acontece. Quando me inventas mundos, quando me dás a mão e o mundo parece apenas ser o nosso ou quando os teus lábios roçam suavemente os meus. Quando fecho os olhos, esqueço os medos. Esqueço-me de tudo. Mas encontro-te no mesmo caminho. À minha espera, desde sempre, garantes tu.

sexta-feira, março 26, 2004

Sem lua nem sol

porque há dias assim... cinzentos. Em que me apetece mandar o mundo à m****. Em que me apetece fugir e deixar de entender, há dias assim em que ponho tudo em causa, em que me ponho em causa. em que fumo demasiado. em que me sinto demasiado. Dias sem lua nem sol. Sem luz. Cinzentos e sem qualquer brilho que se arrastam por horas indefenidas em autocomiseração. São assim estes dias...

terça-feira, março 23, 2004

Eu, apenas, eu...

Gosto da vida. Dos seus constantes desafios. Das quedas que obrigam ao nascimento de feridas. Das lágrimas que brotam sem cessar. Mas gosto sobretudo da liberdade de olhar de frente para o mundo e da utopia que alimenta o sonho de o poder possuir um dia por inteiro. Nem que seja comprimido no corpo ou no sorriso inteiro e franco de alguém. Sem cordas. Sem prisões porque tal como as gaivotas, aspiro à liberdade. E o amor é uma forma de liberdade. Do corpo e do espírito.
Exponho-me. Entrego-me. Porque não quero perder tempo. Porque a vida é curta, como me ensinaste um dia. E, juro-te não quis acreditar. Éramos jovens, tinha o tempo todo para te confessar o que sentia. Até um dia, o tempo se ter esgotado entre nós.
Agora agarro a vida. Suspendo o tempo entre as minhas mãos e impeço o amor de se escapulir. Muitas vezes não consigo. Porque não depende de mim. As coisas que amo são livres de ir e voltar. Afinal a liberdade faz parte do amor. É isto o equílbrio do trapezista que vive sempre sem rede. É isto o voo interminável da gaivota. É isto o motor de arranque de qualquer viajante. É isto que me faz viver. E procurar. Sempre o mais. O meu mais.

sábado, março 20, 2004



A imagem foi retirada daqui



O horizonte a perder de vista. As gaivotas que se esvoaçam livremente pelos céus. Em busca de alimento. Voam. Pelo prazer de voar. De buscar. De atingir o limite dos céus. Da liberdade.
Cansadas, passam apenas a planar. Com a ajuda da breve brisa que as faz flutuar na superfície morna de um sonho incessante, mas já velho e doloroso demais para o esforço que implica voar.
Eu ainda voo. De asas feridas. Cansadas ou quebradas. Ignoro a dor de ontem. De hoje e de amanhã. Prefiro contemplar o horizonte. Na clasura de um sonho. De olhos abertos para o mundo.