sábado, julho 17, 2004

hoje

hoje quero ser apenas um barco no mar

perdido e naufragado nos teus braços

que me acolhem sempre com um sorriso renovado
 


hoje quero ser a âncora que se prende em ti

a janela que se abre para o mundo

a flor que faço desabrochar  


serenamente... hoje... em ti

barco amarrado ao cais

terça-feira, julho 13, 2004

O vento veste os cabelos, rasga a voz; é eco... sabe de nós. Ricardo Mariano

O vento veste os cabelos, rasga a voz; é eco... sabe de nós. Ricardo Mariano É a única testemunha das esquinas frias onde nos despedimos a medo. Ninguém nos pode ver. Ou pressentir. Que isto existe. Que existimos. Que não é apenas o vento de um fim de tarde de inverno que me despenteia os cabelos. São as tuas mãos que os puxam. São os teus dedos que se enrolam nos meus caracóis.
É o vento desse final de tarde que me devolve à outra vida. É esse mesmo vento que me sacode por dentro. Me faz ter calor por todas as entranhas de mim e desejar-te. Aqui e agora. Mais do que um eco. A tua presença. E vento que sabe sempre de nós...

domingo, julho 11, 2004

no chão

de tijoleira, ela senta-se de pernas cruzadas e desenha. A carvão. Traços pretos que definem caminhos, rostos e sonhos. Os dela. Os de ambos. Porque ele sentado, também no chão, toca. Com as cordas inventa e reinventa acordes. Melodias que penetram no ouvido e ficam. A martelar. A desenhar os riscos a carvão que ela traça nas infindáveis folhas brancas que enchem o chão. De tijoleira. Fria. A única testemunha deles. De como fazem, numa forma única e singular, amor. E arte. Numa comunhão perfeita em que se ilude o tempo lá de fora e se caminha de mãos dadas. Ali e só ali. Naquele canto a dois. Onde o amor acontece. E arte se mistura. A dois.

quinta-feira, julho 08, 2004

São só palavras

disse-me ela quando pela primeira vez me leu. Aceitei calada. Tinha razão. Fui para casa reformular o texto, tentando-lhe inventar um estilo e reinventar as palavras. Não resultou, a professora de português cotou a minha composição com um insuficiente sem apelo nem recurso. Não quis desistir. Mas sabia que um dia teria de o fazer. Que não se pode inventar o que não se tem, neste caso, talento. A professora deveria ter razão. Eu não sabia escrever.
Os anos passaram. Hoje, admito, ela tem razão. O que escrevo são só palavras. Que vêm de dentro. Que me corroem, me agridem e me fazem sorrir. Escrever é um prazer. Inimaginavél para quem está do outro lado do espelho. Enfrento os fantasmas de antigamente e dedico-me a escrever. Por agora aqui. Há quase um ano...

sábado, julho 03, 2004

Obrigado

Não era suposto escrever hoje. Nem sequer vir aqui ao blog. Aconteceu lê-lo de ponta a ponta como nunca o tinha feito. Ler e reler posts e comentários. Num acto de narcisismo puro ou de tentativa de elevar o ego. No fim de todas as leituras ficou apenas uma imensa gratidão a todos os que comentam, aos que me escrevem e a todos outros que ainda se detém a ler as minhas palavras. Obrigado.

quinta-feira, julho 01, 2004

apetece-me

Apetece-me um café. Um copo de vinho tinto. A minha música. Uma longa conversa. E uma boa companhia.

quarta-feira, junho 30, 2004

Margaridas

by
Renalva Resende


D. Margarida. Já ninguém a chama por outro nome. Já ninguém na aldeia se lembra que ela tinha outro nome ou mesmo outra vida para além dos seus enormes campos em que plantava margaridas. É um negócio de sucesso. Porque as suas flores são únicas. Viçosas como nenhumas. Não precisam de aspirinas nas jarras para durarem mais tempo. Duram longe da terra quase um mês. Depois morrem, porque como D.Margarida, explica, murcham porque não aguentam as saudades. São flores famosas estas margaridas, acreditem. Até vem pessoas de fora para as verem. O segredo que não é segredo nenhum, contou ela a uma jornalista dessas revistas de domingo, o segredo é o amor. O amor com que se cuida delas, perguntou a jornalista. E D. Margarida com o seu sorriso de garota ainda cândido e ternurento, respondeu-lhe: Esse também é importante. Mas há outro amor. Bem mais forte do que esse. O amor que me levou a plantá-las. Porque o único homem que amei antes de morrer, comparou-me a uma margarida. Bela, discreta e simples, como uma margarida, disse ele. Ele partiu. Eu fiquei. Nasceram as margaridas. Em memória desse amor. Belo, discreto e simples. Como deveriam ser todos. Como uma margarida...

sábado, junho 26, 2004

atrás de ti

há um mundo de fantasmas e de sombras que são impossíveis de escrever. Há o racíocinio frio e incontestavél de quem não quer se arriscar a sair do mesmo lugar. Há o não. Sempre frio e insensivél. Há lógica derretida no momento para sempre suspenso de um beijo. Há a certeza firmada em dezenas de palavras. Há tudo isso e ainda mais aquilo atrás de ti. Á tua frente, estou eu. Ainda à tua espera...

quinta-feira, junho 24, 2004

rasgos




... rasgaste-me o sonho. Que era um sol enorme que amanhecia comigo todas as manhãs, que me afastava os caracóis dos olhos e me obrigava a ver o dia. De forma diferente. Indiferentemente da cor que o céu tivesse. Rasgaste-me o sonho, arrancaste-me a pele quando já estava seca e curtida pelo sal de anos de mar, arrasto e solidão. Esventraste caminhos e perseguiste esperanças em mim. Quando sabias que em mim havia apenas espaço para o meu céu, o meu mar e o meu chacimbo de cereja. Inevitavelmente fechaste, com a palma das tuas mãos esguias e silenciosas, os meus olhos. Deixei de me ver. Passei-me a encontrar apenas no seguimento dos teus dedos e fiquei até te ver deslizar de novo por entre as águas devolvendo-me por fim ao meu tabaco de cereja, ao meu mar e ao meu céu. No final das contas os meus companheiros de sempre.

quarta-feira, junho 23, 2004

Ontem

Hoje ou amanhã. Ontem podia ter sido num dia como outro qualquer. As olheiras e a rouquidão de hoje poderiam ser de um outro dia perdido no calendário. Foram de ontem. Das lágrimas e dos risos. Das gargalhadas e das birras. Dos amuos e dos abraços sentidos. Das palavras que se disseram entre todos nós. Do muito que se viveu e sentiu.
Vida. Sonho. Adolescência. Somos imortais. Temos a vida na mão.Adiamos tudo. Tudo aquilo que deveria ser importante. Seremos irresponsáveis, sem dúvida. Porque ontem era tudo ainda mais possivél do que nos outros dias normais. Ontem éramos todos mais nós. Sem máscaras ou defesas. Com sono, com fome, com frio e ressaca de tabaco. Ontem fomos nós. Fomos o sonho de uma vida em que parece que já se viveu tanto e quando damos por nós numa varanda qualquer a rir de madrugada, percebemos que ainda não vivemos nada. Apesar de tudo. É bom sentir que sim. Que ainda é possivél sonhar. Ontem. Hoje ou amanhã. Fazem sentido estas olheiras e esta rouquidão. Porque faz sentido sonhar e sentirmo-nos imortais.