sexta-feira, maio 27, 2005

a parede branca...

Antes era assim:



Dói
e dói vivermos sem ti. porque há agora um outro tempo na tua memória hoje. um tempo do qual já não faço parte nem sequer me reconheces se me vês. o teu mundo já não é o meu mundo. e os teus olhos já não brilham. agora és vazio. um vazio que dói olhar. porque já foi tudo tão diferente. porque já me ralhaste tanto. porque já me abraçaste tanto. porque as tuas mãos dadas com as minhas já percorreram tantas ruas de Lisboa. porque já rimos tanto as duas. agora parece incrivél ver-te confinada a uma cama. a um vazio. a um mundo do qual não posso. não consigo ser parte. o teu sorriso hoje são apenas músculos que se movem. ontem era a alegria do mundo. e dói vivermos sem ti...

Hoje é assim:


a parede branca. os sussuros das pessoas. as lágrimas que apesar de tudo ser tão natural e esperado. ainda dói. desculpa doer. mas ver-te aqui tão longe num mundo onde não mais te vou encontrar. fechada e trancada nessa madeira escura e àspera sem os beijos que tanto gostavas de receber de toda a gente. ainda dói. desculpa dizer. vai doer sempre. porque cada dor é assim. traz sempre as lágrimas. a comoção. cada morte é assim. a tua também foi. igual a todas as outras. foi uma parte de mim que se foi. a inocência e a beleza de uma infância que cada vez fica mais para trás. ainda dói. desculpa dizê-lo.

23 de Abril de 2005

domingo, maio 15, 2005

Gosto das tuas lágrimas silenciosas que percorrem o teu rosto de menino e acabam nos meus dedos. Dos teus caracóis que se enredam entre os dedos e acabam por se juntar à almofada onde todos os sonhos ficam depois do adeus.
Gosto do teu sorriso grande de surpresa quando são os meus lábios que te acordam na madrugada quente, suada e tão nossa no fim de contas.
Gosto da luz vaga que te ilumina o rosto fechado e absorto no vazio de um olhar que quero apreender na memória: é o único espaço onde ele cabe agora.

quinta-feira, abril 28, 2005

um dia destes

achou-me bonita. viu-me por ai numa naquelas noites cheias de sonhos, luzes e álcool. levou-me pra casa. beijou-me os olhos suavemente. adormeci na lenta melodia das suas palavras cheias de promessas. Acordei depois.
a casa ardia. tive apenas um momento pra decidir. partir ou ficar. viver ou recordar. Saí a correr. magoei-me. no hospital falaram em queimaduras de 1º e 2º grau.
passa com o tempo, disseram eles. Que assim seja... um dia destes talve passem as queimaduras e nos meus sonhos deixe de ouvir as suas falsas promessas.

segunda-feira, abril 25, 2005

depois da noite

foi noite, madrugada e manhã. na praia. a lua devagar. cor de prata no mar imenso onde as ondas se demoravam a acabar. sem pressa de chegar. vi-te a acontecer debaixo dos meus lábios. as mãos nas mãos. como se o tempo não pudesse passar enquanto o conseguissemos agarrar e termos-nos apenas na noite, madrugada que foi manhã. ainda sem dormir. com um café, um cigarro, um gesto pequeno de adeus. porque teve mesmo de ser.

domingo, abril 24, 2005

porque mudámos

de casa, de café. de atitude. de lágrimas. porque mudaste os meus sorrisos. porque mudaste o meu beijo. porque mudaste o meu café preto e azedo pela manhã. porque mudámos as vidas vezes sem conta. porque nos renovamos em cada minutos em sequer nos darmos conta. porque mudei. mudei também os aspecto do blog.

segunda-feira, abril 18, 2005

segredo

beijavas-me o cabelo e pedias-me segredo. segredo para que aquilo tudo fosse nosso. não precisavas de pedir segredo. no sítio onde eu te escondia, ninguém mais te poderia encontrar. mesmo assim. segredo. o teus dedos contornando os meus lábios. em silêncio. porque tínhamos de falar baixinho. as palavras dos outros não faziam parte de nós.
e sentia-me tão contente. porque te amava. tu amavas-me. mesmo que num amor confinado às paredes daquela pensão barata. numa cama de lençóis arrancados na força do amor. que fazíamos, desfazíamos e inventámos para nós. em horas. minutos em que eu precisava apenas de um beijo. pedias-me silêncio. depois segredo. e no fim. acabou o meu amor. porque desfiz o segredo e fugi de ti. gosto de amar em liberdade.

sábado, abril 02, 2005

o que vês?

O que vês?


Ele e ela. deitados


E que fazem?


Nada. limitam-se a estarem deitados. juntos. em silêncio.


Só assim? Sem mais nada?


Só eles. O silêncio. E o amor.

quinta-feira, março 31, 2005

mudámos de caminho

atravessei a estrada e agora há um mundo que nos separa. Lá longe ficaram os orgulhos, as desilusões, as esperanças adiadas e rios de palavras que se derramaram em forma de lágrimas que tu nunca presenciaste. sempre demasiado cobarde para as ver. sempre demasiado longe para as limpar. sempre demasiado perto para as fazer acontecer.



Agora já não. Mudámos de caminho. Mudámos de cafés. De roupa e de mundo. Já não nos encontramos. Já não há lágrimas entre nós. Só meia dúzia de memórias doces que um dia substituirei por outras. Mudámos a música. Cortámos laços. Agora mais sozinhos que nunca. Mudámos de amores. E já nem sequer nos reconhecemos na rua.



Bom para ti. Melhor para mim.

sábado, março 12, 2005

Limites e fragilidades

Não sabes sempre tudo. Nem sempre as palavras querem dizer sentimentos. E nem os sentimentos que pensamos sentir são realmente nossos. São dos outros. Da forma como os vemos e os queremos ver e a sensação agradavél que isso nos porporciona. E como nos habituamos a isso. Pensa bem. Nem sempre tens razão. Nem mesmo quando o teu corpo chama ansioso pelo meu e em questão de segundos o desmancha. Mesmo que eu caia e aceda a todas as tuas loucuras. Nem sempre é por amor a ti. É por mim. Para testar os meus limites. Que sei cada vez mais frágeis em relação a ti. Afinal... no fim das contas, talvez acabes por teres razão... gosto demasiado de ti.

sábado, março 05, 2005

A Carta

Entregaste à Lúcia porque tinhas vergonha de me entregares directamente a mim. Ou medo da minha resposta. A uma carta que não pedia resposta. Apenas afirmava coisas. Sentimentos que me deixaram com um sorriso na cara e uns berlindes em vez de olhos. Tal era o brilho. As cartas sucederam-se umas a seguir às outras. em jeito de confissão. Como quando vinhas tarde, eu já estava a dormir e não tinhas tempo de me dizer que me amavas. Ou quando o Zé nasceu e tu embasbacado com ele nos meus braços não conseguiste dizer nada e as lágrimas caíam-te em silêncio. Nós os três. A carta. Que me deixaste em jeito de carinho quando o Zé foi pela primeira vez à escola e eu tive medo de o começar a perder. Quando ele teve a primeira namorada ou quando fomos à sua benção das fitas. Foram tantas cartas. Tantos momentos... E agora a Carta, porque estás longe. Num sítio distante em que as palavras não te alcançam e já nem sequer falas. Agora é a minha vez de ter ler e reler e por fim escrever esta carta. Em jeito de agradecimento. Por tudo.