sábado, junho 04, 2005

Um amor impossível

Falamos de amor. Do que pensamos ser o amor. Das emoções que nos descontrolam a mente e por vezes também o corpo. Sentimos. Trocamos as voltas aos sentimentos e agora já não sentimos nada. Passou tudo neste instante em que o cigarro se apagou e a cabeça pousou descansada na almofada para finalmente adormecer. Depois de tudo. Dos olhares, dos sorrisos, das palavras trocadas em conversas infindas.
Tirámos todas as conclusões. As possíveis. E as outras que só fazem sentido em nós. À luz do nosso amor. Que é sempre impossível. Por ser nosso.
O de todos os outros seres mortais é possível. Só o nosso é que não. Nunca poderá ser...


...Porque tu simplesmente olhas-me e não me vês
... porque não me dizes as palavras que quero ouvir
.... porque não me beijas quando tenho saudades
não me abraças quando são dos teus braços que mais preciso


porque existe um tu
porque existe um eu
porque existe um eu sem tu


Somos o mais que podemos ser. Damos mais do que temos. E depois nunca consegue ser de amor o olhar do outro. O gesto do outro. É sempre imperfeito. Traz sempre um quase agrafado a si. Um laço que nunca dá o nó. Que nunca agarra o outro e que acaba, por sem nós nos darmos conta, nos enforcar. Com a força desse tal amor. Impossível. Porque é apenas nosso.


E nunca teu...


Nunca nos teus gestos paixão.
Nunca nos teus olhos desejo
Nunca nos teus actos redenção
Nunca.


Apenas o vazio. Do depois. Do que nunca chega a ser. Do silêncios que sabemos de cor. Das oportunidades que poderiam ser e que nunca chegarão a ser. Das opções que decidiram uma vida. Dos arrependimentos. Os caminhos que se parecem fechar. As apostas fecharam há uma hora atrás. Os dados foram lançados. Caminho sem volta. Amor impossível. Apenas...


porque existe um tu
porque existe um eu
porque existe um eu sem tu

quarta-feira, junho 01, 2005

Foste

Foste a areia que sempre me escapou por entre os dedos. o horizonte que não consegui alcançar. A tela que tentei pintar vezes demais. a oração que não quiseste ouvir. Foste tudo isso. O sorriso. A lágrima depois. O riso. O desespero. A razão. E ainda mais o coração. Foste o olhar, o beijo e foste as palavras encadeadas em conversas difíceis de terminar. Foste tudo isso.



Talvez mais. Decerto demais.

domingo, maio 29, 2005

preciso do tempo

desse tempo que se estende para além de nós. do tempo antigo. dos telefonemas desesperados às amigas de madrugada, das solitárias noites de gelados, chocolates e filmes românticos. das choradeiras. do tempo em que te via e tudo em mim vibrava. preciso do tempo em que ficava horas a pôr-me bonita para tu me achares um bocadinho de nada diferente. preciso do tempo em que ver-te era a magia desse dia. da semana inteira.
preciso do tempo em que te ver não era acordar com o teu ressonar durante a noite. as nossas mensagens não era informações sobre o trânsito. preciso do tempo em que as nossas conversas não eram sobre a ementa do dia a seguir. preciso do tempo em que gastava o meu dinheiro em roupa para te seduzir e não electrodomésticos a crédito.preciso daqueles fins de tarde na praia num rapto inesperado e precioso ao contrário das idas ao supermercado e das limpezas em casa.



preciso do tempo em que sabia que te amava e isso bastava-me para viver.

sexta-feira, maio 27, 2005

a parede branca...

Antes era assim:



Dói
e dói vivermos sem ti. porque há agora um outro tempo na tua memória hoje. um tempo do qual já não faço parte nem sequer me reconheces se me vês. o teu mundo já não é o meu mundo. e os teus olhos já não brilham. agora és vazio. um vazio que dói olhar. porque já foi tudo tão diferente. porque já me ralhaste tanto. porque já me abraçaste tanto. porque as tuas mãos dadas com as minhas já percorreram tantas ruas de Lisboa. porque já rimos tanto as duas. agora parece incrivél ver-te confinada a uma cama. a um vazio. a um mundo do qual não posso. não consigo ser parte. o teu sorriso hoje são apenas músculos que se movem. ontem era a alegria do mundo. e dói vivermos sem ti...

Hoje é assim:


a parede branca. os sussuros das pessoas. as lágrimas que apesar de tudo ser tão natural e esperado. ainda dói. desculpa doer. mas ver-te aqui tão longe num mundo onde não mais te vou encontrar. fechada e trancada nessa madeira escura e àspera sem os beijos que tanto gostavas de receber de toda a gente. ainda dói. desculpa dizer. vai doer sempre. porque cada dor é assim. traz sempre as lágrimas. a comoção. cada morte é assim. a tua também foi. igual a todas as outras. foi uma parte de mim que se foi. a inocência e a beleza de uma infância que cada vez fica mais para trás. ainda dói. desculpa dizê-lo.

23 de Abril de 2005

domingo, maio 15, 2005

Gosto das tuas lágrimas silenciosas que percorrem o teu rosto de menino e acabam nos meus dedos. Dos teus caracóis que se enredam entre os dedos e acabam por se juntar à almofada onde todos os sonhos ficam depois do adeus.
Gosto do teu sorriso grande de surpresa quando são os meus lábios que te acordam na madrugada quente, suada e tão nossa no fim de contas.
Gosto da luz vaga que te ilumina o rosto fechado e absorto no vazio de um olhar que quero apreender na memória: é o único espaço onde ele cabe agora.

quinta-feira, abril 28, 2005

um dia destes

achou-me bonita. viu-me por ai numa naquelas noites cheias de sonhos, luzes e álcool. levou-me pra casa. beijou-me os olhos suavemente. adormeci na lenta melodia das suas palavras cheias de promessas. Acordei depois.
a casa ardia. tive apenas um momento pra decidir. partir ou ficar. viver ou recordar. Saí a correr. magoei-me. no hospital falaram em queimaduras de 1º e 2º grau.
passa com o tempo, disseram eles. Que assim seja... um dia destes talve passem as queimaduras e nos meus sonhos deixe de ouvir as suas falsas promessas.

segunda-feira, abril 25, 2005

depois da noite

foi noite, madrugada e manhã. na praia. a lua devagar. cor de prata no mar imenso onde as ondas se demoravam a acabar. sem pressa de chegar. vi-te a acontecer debaixo dos meus lábios. as mãos nas mãos. como se o tempo não pudesse passar enquanto o conseguissemos agarrar e termos-nos apenas na noite, madrugada que foi manhã. ainda sem dormir. com um café, um cigarro, um gesto pequeno de adeus. porque teve mesmo de ser.

domingo, abril 24, 2005

porque mudámos

de casa, de café. de atitude. de lágrimas. porque mudaste os meus sorrisos. porque mudaste o meu beijo. porque mudaste o meu café preto e azedo pela manhã. porque mudámos as vidas vezes sem conta. porque nos renovamos em cada minutos em sequer nos darmos conta. porque mudei. mudei também os aspecto do blog.

segunda-feira, abril 18, 2005

segredo

beijavas-me o cabelo e pedias-me segredo. segredo para que aquilo tudo fosse nosso. não precisavas de pedir segredo. no sítio onde eu te escondia, ninguém mais te poderia encontrar. mesmo assim. segredo. o teus dedos contornando os meus lábios. em silêncio. porque tínhamos de falar baixinho. as palavras dos outros não faziam parte de nós.
e sentia-me tão contente. porque te amava. tu amavas-me. mesmo que num amor confinado às paredes daquela pensão barata. numa cama de lençóis arrancados na força do amor. que fazíamos, desfazíamos e inventámos para nós. em horas. minutos em que eu precisava apenas de um beijo. pedias-me silêncio. depois segredo. e no fim. acabou o meu amor. porque desfiz o segredo e fugi de ti. gosto de amar em liberdade.

sábado, abril 02, 2005

o que vês?

O que vês?


Ele e ela. deitados


E que fazem?


Nada. limitam-se a estarem deitados. juntos. em silêncio.


Só assim? Sem mais nada?


Só eles. O silêncio. E o amor.