sábado, janeiro 06, 2007

atada

atada.nós fortes. laços inquebravéis. amarras para sempre. a aliança no dedo. poderia já estar tudo dito se te quissesse falar do fim inevitavél que tudo isto um dia terá. por agora vivo atada. na corda bamba de uma história que bem podia ser de equilibristas ou de trapezistas que voam de olhos fechados. espírito aberto dado a possibilidade de caírem, magoarem-se ou morrerem. beijas-me. fecho os olhos. voo. pouso o meu corpo cansado mesmo à beirinha do precepício da paixão. escuto uma voz que me aconselha prudência. não gosto destas vozinhas interiores. caio as vezes que cair. as que forem necessárias para poder sentir sempre o que é voar. desafiar a vida em cada beijo que damos. sem medo de morrer. porque garantiram-me que já não se morre de amor.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

a preto e branco.

porque quero recordar para sempre este instante. seguro o teu rosto entre as minhas mãos suadas e fixo o teu olhar dentro do meu. é assim que te quero. para sempre. dentro de mim. seguras o meu cabelo com a força de uma paixão que não podemos viver e que existe só aqui. nas paredes deste quarto alugado entre a tua hora de almoço e a minha. na cabeceira os telemoveis fazem as vezes de despertadores de sonhos. o nosso. que podia ser de amor. mas é disto. dos corpos que se agarram desesperadamente. dos lábios que se devoram. das mãos que não se desprendem. destes olhos nos olhos que quero guardar para sempre. como prova de que um dia amei. de que um dia te amei.
Na cabeceira as sandes de plástico que mordemos nos intervalos de trincarmos a pele um do outro. com cuidado. as marcas são perigosas e podem revelar a outros olhares a nossa história. as roupas no chão despidas em contra relógio. tu dentro de mim. desejando-me e querendo-me como se só tivéssemos o hoje. este presente quase envenenado com que nos brindamos entre a tua hora de almoço e a minha por entre mensagens ardentes e declarações românticas. a preto e banco. seguro o teu rosto. quero decorar-te. dentro de mim. por dentro de mim. para que não saias daqui. beijo-te. prova-me que existes. és meu. e estás aqui.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

esperar

esperava por ti. á janela. como talvez a minha avó fizesse quando namorava o meu avô e ficava horas perdidas à espera de o ver passar. eu também esperei assim como ela. fumava um, dois, três cigarros. às vezes o maço inteiro. eu não esperava que passasses simplesmente. eu queria que entrasses. de uma vez por todas. e ficasses. absolutamente tu. porque te queria imensamente. esperava apesar de tudo. porque sempre acreditei que depois de cada despedida tua por mais dolorosa que fosse, haverias de voltar. e um dia, longe ou perto, me segredarias: és tu. nesse dia haverias de entrar, fechar a porta e ficar. nunca entraste. limitaste-te a passar por debaixo da minha espera.

depois... um dia saí da janela e fui viver a minha vida...

Esperava que esperasses por mim sempre. para sempre. até eu ter tempo de crescer. correr mundo, deitar-me com todas as ninfas e deusas, viver mil aventuras e depois só no fim desse depois voltar para ti. esperava que te mantivesses fielmente à janela à espera do nosso amor. esse nosso amor que ninguém nos há-de roubar. porque há noites que serão só nossas, acredita. foi por esse amor que esperei sempre. foi por esse amor forte, címplice e tão absoluto que corri mundo porque esperava encontrar outro igual. não encontrei. só há o nosso. agora só meu. porque não esperava que não me esperasses.

sábado, dezembro 09, 2006

aconteceres

aconteça o que acontecer, nunca te vou esquecer...



eu também não. apeteceu-me dizer-te. mesmo que quissesse. tenho como uma daquelas certezas demasiado minhas. definitivas e absolutas. que não. não te vou esquecer. e confesso-te no silêncio desta madrugada, também a mim me apeteceu chorar. nessa ocasião como nunca. quando as tuas lágrimas se misturam com a pele do meu colo, quando os meus dedos se enrolaram com os teus caracóis de menino e eu te tive como ninguém te teve. acho que foi nesse momento que percebi que nos amávamos e que erámos impossiveis lá fora.



aconteça o que acontecer.

terça-feira, novembro 28, 2006

quase, quase

a atingir a idade mítica em que depois disto já não dá vontade de ver o tempo a passar no relógio. as contas são outras e as horas são assaltos disfarçados aos dias que correm cada vez mais depressa.e já não esperam como esperavam dantes.
dantes quando me podia sentar no colo de alguém.
dantes quando alguém me vigiava o sono.
dantes quando alguém me prometia que eu era uma princesa e que iria ser feliz para sempre. dantes quando perdia horas a falar ao telefone com as amigas sobre coisa nenhuma.
dantes quando sonhava que se podia mudar o mundo.
dantes quando acreditava que o mundo era a casa, o bairro, a cidade, o país.
dantes quando eu podia segurar a mão de alguém e me sentir segura.
dantes quando o meu medo eram os papões.
dantes quando todas as minhas feridas se curavam com álcool.
dantes quando bastava a mão na minha testa para todas as dores passarem.
dantes quando não sentia saudades.
dantes quando as histórias me embalavam.
dantes quando os meus mortos eram vivos.
dantes quando eu não pensava. não sentia o tempo a passar.
dantes... foi já há muito tempo. longe demais.

quando as luzes se apagam

fica só a luz das velas. o vinho nos copos, o eco dos risos durante o jantar, as marcas do sorriso no rosto. fica o resto de tudo o que se disse. o silêncio do carinho quando os teus braços me envolvem num longo abraço. ficam os beijos ténues que depositas no meu rosto e nas minhas mãos. como quem diz que o amor pode ser isto. ou que o amor deveria ser isto.
quando as luzes se apagam... apetece recolher-me nos teus baços e não ser ninguém. esquecer-me de ser gente. de ser alma, coração ou pele. apetece-me morrer em ti.
e assim que as palavras acontecerem na minha boca, vou dizer-te que é do vinho, quando os meus lábios tocarem os teus, vou dizer-te que é de carinho, quando as mão se procurarem, vou-te falar inevitavelmente da solidão. quando as luzes se apagarem, vou-te falar de nós.

domingo, novembro 19, 2006

casamento

ver-te no altar. depois de tudo. ver-te a colocar a aliança. a sorrir. feliz. o dia era teu. a festa também. susti as lágrimas o mais que pude. mas mais do que te ver partir doeu saber que crescemos. nada mais volta a ser igual. nem as brincadeiras, os segredos, ou as guerras de almofadas. mudou tudo. hoje já não tenho medo que caias da árvore e partas uma perna, hoje tenho apenas medo de não te ver sorrir.

sexta-feira, novembro 10, 2006


Tens agora a mão fechada;

no rosto, nenhum fulgor.

Não foi nada, não foi nada:

podia ter sido amor.

* o poema é de David Mourão Ferreira. O quadro é de Dali. o momento é meu porque não pode mesmo ser teu.

sábado, novembro 04, 2006

hoje

Hoje escrevo apenas para me ler. Para me tentar lembrar de quem sou. do que fui. leio-me nas entrelinhas de parágrafos passados e tento encaixar-me ali. eu que já fui aquilo tudo. já senti mesmo aquilo tudo. e tudo aquilo já acabou. porque o tempo passou.
ainda acho que escrevi demais. que fui coisas demais no tempo que se esgotou hoje. cristalizei-me no gelo dos afectos. porque não sei escrever-me. hoje. tão só. tão eu. tão demais. avanço por dentro de mim. no espelho dos laços. toco-me para ter a certeza de que sou eu. já não sei escrever-me. já não sei ser eu.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Fechar os olhos

00:30
Apaga a luz. Tenho sono. Deixa-me dormir. Hoje o dia foi mau. Não, sabes bem que não a esta hora não quero ler, só dormir, importas-te?


00: 32
Sei lá, se estou a ser intransigente, a esta hora podia ser tudo, até o detergente para a máquina. Esse mesmo aquele que te esqueceste de comprar. Amanhã não tenho a camisa azul lavada por tua causa.


00: 35
‘tá bem! Também não quero discutir, só dormir. Apagas a luz?! Quero fechar os olhos. E sonhar.


00: 38
Com quem? Sei lá. Com quem. É quase uma da manhã, e perguntas-me com quem é que eu quero sonhar? Olha quero sonhar que estou a dormir, serve-te a resposta?


00: 42
Queres fazer o quê?! Uma reflexão sobre o nosso casamento? A esta hora, desculpa mas é impossível. Sei lá, se é o nosso casamento que me dá sono, talvez sejas tu, o coitado do casamento não é para aqui chamado.


00: 46
Gosto, gosto muito de ti, vou gostar ainda mais amanhã, se hoje puder fechar os olhos e esquecer-te por algumas horas.


00: 48
Estou cansado, vê se entendes, quero dormir. Também devias dormir, fazia-te bem à pele, amanhã parecerás outra mulher.


00: 53
Claro que não, não estou farto da tua pele, ou do teu corpo, é igual ao de antes, melhor, pronto, as plásticas e os cremes fizeram-te bem. És linda, olha mais bonita ainda do que aquela modelo que apresenta o programa da tarde.


00: 55
Não, não estou a mentir. Era lá capaz disso, a esta hora...


01:00
Fecho finalmente os olhos. Boa noite. Também te amo...