segunda-feira, janeiro 15, 2007

quando tudo ainda é tudo

Quando tudo é ainda é tudo. mesmo tudo. se é que me entendem. quando o amor é qualquer coisa de indefinida escrita e reescrita em mensagens grátis para os telemóveis divididas alternadamente entre as amigas e aquela pessoa especial. Nesse mesmo quando, há uns anos atrás, agora parecem-me séculos, confesso, vi-te. E acho que sim que me apaixonei. Ou pior do que isso, tornaste-te o meu herói. tornaste-te o mágico do meu sorriso. o único adulto ao cimo da terra que me entendia. tinhas a vida que eu ambicionava ter um dia. a liberdade que eu invejava. a solidão que me inspirava. eras tudo. quando tudo era ainda tudo. o meu melhor amigo que me defendeu das lágrimas quando a morte me bateu à porta pela primeira vez. nunca hei de esquecer aquele abraço quente que me agasalhou da frieza dos imponentes ciprestes no cemitério. como me levantaste, me sentaste na mota e me fizeste desaparecer para bem longe do mundo. porque descobri nesse dia que era um sítio onde doía demais existir.
Quando tudo ainda era tudo, desfazias-me as palavras e os sonhos com histórias de vidas cheias de ruas e avenidas vividas à noite debaixo de cobertores rotos ou de cartão.
Quando tudo era ainda tudo, trocaste-me os meus sonhos de menina por dores brutais de mulher. obrigaste-me a crescer, amargando-me os lábios. tenho as imagens gravadas na cabeça e tive-as demasiados anos gravadas na pele.
quando tudo era tudo, não entendi. chorei. e morri-te no sofá preto com riscas vermelhas. porque foi ali que tudo deixou de ser tudo para passar a ser uma qualquer coisa que doía demasiado e não conseguia contar a ninguém. entre a dor e a vergonha nasci-me. outra vez. as que forem precisas para que tudo ainda seja tudo. porque não há dor capaz de me calar o sorriso que trago preso nos meus lábios.

terça-feira, janeiro 09, 2007

anda

anda. vamos? onde? a esta hora? Não respondes à minha sucessão de perguntas e escondes-te no silêncio de quem veste apressado o casaco e sai. antes de fechar a porta, diz-me então. vou comprar cigarros. Não fumas, penso eu. Visto também eu o meu casaco apressadamentes e com as chaves no bolso sigo os teus passos. Se desapereceres eu também quero desaparecer contigo.
Seguimos pela rua meio que desorientados pela penumbra da noite escondendo-nos da pouca luz existente. o teu passo acelera de vez em quando. quase corres. á procura de cigarros. à procura do fim. corro também. as minhas pernas são pequenas demais. sinto-me a perder as forças. não queria desistir ainda. acho-me tão nova para essas coisas. desistir. parar de lutar. abandonar o barco. mas confesso. nunca pensei que precisasses de cigarros numa noite como esta. escura e perdida numa aldeia sem luz.
já não vamos a lado nenhum. alcançaste o fim. agora tenho sempre cigarros para ti. se voltares. não precisas de procurar mais nada.

sábado, janeiro 06, 2007

atada

atada.nós fortes. laços inquebravéis. amarras para sempre. a aliança no dedo. poderia já estar tudo dito se te quissesse falar do fim inevitavél que tudo isto um dia terá. por agora vivo atada. na corda bamba de uma história que bem podia ser de equilibristas ou de trapezistas que voam de olhos fechados. espírito aberto dado a possibilidade de caírem, magoarem-se ou morrerem. beijas-me. fecho os olhos. voo. pouso o meu corpo cansado mesmo à beirinha do precepício da paixão. escuto uma voz que me aconselha prudência. não gosto destas vozinhas interiores. caio as vezes que cair. as que forem necessárias para poder sentir sempre o que é voar. desafiar a vida em cada beijo que damos. sem medo de morrer. porque garantiram-me que já não se morre de amor.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

a preto e branco.

porque quero recordar para sempre este instante. seguro o teu rosto entre as minhas mãos suadas e fixo o teu olhar dentro do meu. é assim que te quero. para sempre. dentro de mim. seguras o meu cabelo com a força de uma paixão que não podemos viver e que existe só aqui. nas paredes deste quarto alugado entre a tua hora de almoço e a minha. na cabeceira os telemoveis fazem as vezes de despertadores de sonhos. o nosso. que podia ser de amor. mas é disto. dos corpos que se agarram desesperadamente. dos lábios que se devoram. das mãos que não se desprendem. destes olhos nos olhos que quero guardar para sempre. como prova de que um dia amei. de que um dia te amei.
Na cabeceira as sandes de plástico que mordemos nos intervalos de trincarmos a pele um do outro. com cuidado. as marcas são perigosas e podem revelar a outros olhares a nossa história. as roupas no chão despidas em contra relógio. tu dentro de mim. desejando-me e querendo-me como se só tivéssemos o hoje. este presente quase envenenado com que nos brindamos entre a tua hora de almoço e a minha por entre mensagens ardentes e declarações românticas. a preto e banco. seguro o teu rosto. quero decorar-te. dentro de mim. por dentro de mim. para que não saias daqui. beijo-te. prova-me que existes. és meu. e estás aqui.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

esperar

esperava por ti. á janela. como talvez a minha avó fizesse quando namorava o meu avô e ficava horas perdidas à espera de o ver passar. eu também esperei assim como ela. fumava um, dois, três cigarros. às vezes o maço inteiro. eu não esperava que passasses simplesmente. eu queria que entrasses. de uma vez por todas. e ficasses. absolutamente tu. porque te queria imensamente. esperava apesar de tudo. porque sempre acreditei que depois de cada despedida tua por mais dolorosa que fosse, haverias de voltar. e um dia, longe ou perto, me segredarias: és tu. nesse dia haverias de entrar, fechar a porta e ficar. nunca entraste. limitaste-te a passar por debaixo da minha espera.

depois... um dia saí da janela e fui viver a minha vida...

Esperava que esperasses por mim sempre. para sempre. até eu ter tempo de crescer. correr mundo, deitar-me com todas as ninfas e deusas, viver mil aventuras e depois só no fim desse depois voltar para ti. esperava que te mantivesses fielmente à janela à espera do nosso amor. esse nosso amor que ninguém nos há-de roubar. porque há noites que serão só nossas, acredita. foi por esse amor que esperei sempre. foi por esse amor forte, címplice e tão absoluto que corri mundo porque esperava encontrar outro igual. não encontrei. só há o nosso. agora só meu. porque não esperava que não me esperasses.

sábado, dezembro 09, 2006

aconteceres

aconteça o que acontecer, nunca te vou esquecer...



eu também não. apeteceu-me dizer-te. mesmo que quissesse. tenho como uma daquelas certezas demasiado minhas. definitivas e absolutas. que não. não te vou esquecer. e confesso-te no silêncio desta madrugada, também a mim me apeteceu chorar. nessa ocasião como nunca. quando as tuas lágrimas se misturam com a pele do meu colo, quando os meus dedos se enrolaram com os teus caracóis de menino e eu te tive como ninguém te teve. acho que foi nesse momento que percebi que nos amávamos e que erámos impossiveis lá fora.



aconteça o que acontecer.

terça-feira, novembro 28, 2006

quase, quase

a atingir a idade mítica em que depois disto já não dá vontade de ver o tempo a passar no relógio. as contas são outras e as horas são assaltos disfarçados aos dias que correm cada vez mais depressa.e já não esperam como esperavam dantes.
dantes quando me podia sentar no colo de alguém.
dantes quando alguém me vigiava o sono.
dantes quando alguém me prometia que eu era uma princesa e que iria ser feliz para sempre. dantes quando perdia horas a falar ao telefone com as amigas sobre coisa nenhuma.
dantes quando sonhava que se podia mudar o mundo.
dantes quando acreditava que o mundo era a casa, o bairro, a cidade, o país.
dantes quando eu podia segurar a mão de alguém e me sentir segura.
dantes quando o meu medo eram os papões.
dantes quando todas as minhas feridas se curavam com álcool.
dantes quando bastava a mão na minha testa para todas as dores passarem.
dantes quando não sentia saudades.
dantes quando as histórias me embalavam.
dantes quando os meus mortos eram vivos.
dantes quando eu não pensava. não sentia o tempo a passar.
dantes... foi já há muito tempo. longe demais.

quando as luzes se apagam

fica só a luz das velas. o vinho nos copos, o eco dos risos durante o jantar, as marcas do sorriso no rosto. fica o resto de tudo o que se disse. o silêncio do carinho quando os teus braços me envolvem num longo abraço. ficam os beijos ténues que depositas no meu rosto e nas minhas mãos. como quem diz que o amor pode ser isto. ou que o amor deveria ser isto.
quando as luzes se apagam... apetece recolher-me nos teus baços e não ser ninguém. esquecer-me de ser gente. de ser alma, coração ou pele. apetece-me morrer em ti.
e assim que as palavras acontecerem na minha boca, vou dizer-te que é do vinho, quando os meus lábios tocarem os teus, vou dizer-te que é de carinho, quando as mão se procurarem, vou-te falar inevitavelmente da solidão. quando as luzes se apagarem, vou-te falar de nós.

domingo, novembro 19, 2006

casamento

ver-te no altar. depois de tudo. ver-te a colocar a aliança. a sorrir. feliz. o dia era teu. a festa também. susti as lágrimas o mais que pude. mas mais do que te ver partir doeu saber que crescemos. nada mais volta a ser igual. nem as brincadeiras, os segredos, ou as guerras de almofadas. mudou tudo. hoje já não tenho medo que caias da árvore e partas uma perna, hoje tenho apenas medo de não te ver sorrir.

sexta-feira, novembro 10, 2006


Tens agora a mão fechada;

no rosto, nenhum fulgor.

Não foi nada, não foi nada:

podia ter sido amor.

* o poema é de David Mourão Ferreira. O quadro é de Dali. o momento é meu porque não pode mesmo ser teu.