sábado, março 24, 2007

porque não sei

porque não sei tanto. tanto mesmo. há tanta coisa para lá de mim. tanto que não sei dizer, exprimir e segredar-te ao ouvido. não sei como te dizer o que isto é. como é. como me atravessa os sentidos, se entranha nas vísceras e me faz querer-te. acima de todos os medos. acima de todos os riscos. dos costumes. acima dos outros. acima de mim mesma. porque subo. fecho os olhos extasiada. estou no topo do mundo. estou contigo. e sei. tão bem que sei. talvez seja a única coisa, que verdadeiramente sei, não era contigo que deveria estar. de mãos dadas até tudo se acabar e a eternidade se perder debaixo da água quente. onde o teu corpo já não é meu. E o meu voltou apenas a ser corpo. porque não sei ser mais nada. não sei se há mais alguma coisa para ser aqui. contigo. ainda que no topo do mundo.

quinta-feira, março 15, 2007

Não sabes...

Não sabes as palavras mas adivinhas as letras. Não sabes os nomes, mas adivinhas-lhes as formas. Não sabes quanto tempo, mas adivinhas que é pouco. Não sabes se é poema, conto ou romance, mas adivinhas que é de amor os segredos que te escrevo no papel. Não sabes se é de noite ou de dia, mas adivinhas que te chamo no silêncio dos meus sonhos. Não sabes se sou culpada ou inocente, mas adivinhas o feitiço nos olhos. Não sabes se sou terra, ar ou água, mas adivinhas que não sou de ninguém. Não sabes se te amo, mas adivinhas no corpo que te quero. Não sabes para onde vou, mas adivinhas que vou sem ti. Não sabes as notas, mas adivinhas a música branca que nos abraça e nos tenta. Não o sabes verdadeiramente mas… amo-te

domingo, fevereiro 18, 2007

fogo

quem brinca com o fogo, queima-se. foi assim que nos conhecemos. tu eras fogo. e eu estava disposta a queimar-me. nessa fogueira imensa. tivesse ela a dimensão que tivesse. durasse o tempo que durasse a extinguir-se. iria perserguir-te até ao fim. até te ter. decidi nesse mesmo dia.


com o passar do tempo, dei-me conta que não brincava com o fogo. pisava-o de pés descalços. com a humildade de quem sabe que para ter, é preciso lutar. com a inocência de quem inicia um caminho pela primeira vez. com a ingenuidade de quem ainda olha o mundo à volta com olhos grandes de espanto.




amo-te: piso o fogo de pés descalços.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

revisão da matéria

quando andava na escola as aulas que mais me entediavam eram estas: revisões da matéria dada. chegava ao fim e a conclusão era sempre a mesma. não entendia nada. faltavam sempre conhecimentos que por preguiça deixava acumular no saco do depois. hoje a revisão da matéria deixa-me ainda a mesma sensação. faltam-me conhecimentos. para poder lidar com isto que é a vida. com isto que é a morte. com isto que é o amor. com isto que é esta dor no peito que me estrangula a verdade. se revir a matéria percebo que continuo, apesar da passagem do tempo, a saber cada vez menos sobre as coisas. porque tudo me parece sempre novo. e com olhos de espanto encaro o dia da revisão da matéria. afinal sei que pouco ou nada sei. sobre isto. que dói. e que ás vezes chamam de vida. de amor. de dor. de qualquer coisa. nada sei.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

quando tudo ainda é tudo

Quando tudo é ainda é tudo. mesmo tudo. se é que me entendem. quando o amor é qualquer coisa de indefinida escrita e reescrita em mensagens grátis para os telemóveis divididas alternadamente entre as amigas e aquela pessoa especial. Nesse mesmo quando, há uns anos atrás, agora parecem-me séculos, confesso, vi-te. E acho que sim que me apaixonei. Ou pior do que isso, tornaste-te o meu herói. tornaste-te o mágico do meu sorriso. o único adulto ao cimo da terra que me entendia. tinhas a vida que eu ambicionava ter um dia. a liberdade que eu invejava. a solidão que me inspirava. eras tudo. quando tudo era ainda tudo. o meu melhor amigo que me defendeu das lágrimas quando a morte me bateu à porta pela primeira vez. nunca hei de esquecer aquele abraço quente que me agasalhou da frieza dos imponentes ciprestes no cemitério. como me levantaste, me sentaste na mota e me fizeste desaparecer para bem longe do mundo. porque descobri nesse dia que era um sítio onde doía demais existir.
Quando tudo ainda era tudo, desfazias-me as palavras e os sonhos com histórias de vidas cheias de ruas e avenidas vividas à noite debaixo de cobertores rotos ou de cartão.
Quando tudo era ainda tudo, trocaste-me os meus sonhos de menina por dores brutais de mulher. obrigaste-me a crescer, amargando-me os lábios. tenho as imagens gravadas na cabeça e tive-as demasiados anos gravadas na pele.
quando tudo era tudo, não entendi. chorei. e morri-te no sofá preto com riscas vermelhas. porque foi ali que tudo deixou de ser tudo para passar a ser uma qualquer coisa que doía demasiado e não conseguia contar a ninguém. entre a dor e a vergonha nasci-me. outra vez. as que forem precisas para que tudo ainda seja tudo. porque não há dor capaz de me calar o sorriso que trago preso nos meus lábios.

terça-feira, janeiro 09, 2007

anda

anda. vamos? onde? a esta hora? Não respondes à minha sucessão de perguntas e escondes-te no silêncio de quem veste apressado o casaco e sai. antes de fechar a porta, diz-me então. vou comprar cigarros. Não fumas, penso eu. Visto também eu o meu casaco apressadamentes e com as chaves no bolso sigo os teus passos. Se desapereceres eu também quero desaparecer contigo.
Seguimos pela rua meio que desorientados pela penumbra da noite escondendo-nos da pouca luz existente. o teu passo acelera de vez em quando. quase corres. á procura de cigarros. à procura do fim. corro também. as minhas pernas são pequenas demais. sinto-me a perder as forças. não queria desistir ainda. acho-me tão nova para essas coisas. desistir. parar de lutar. abandonar o barco. mas confesso. nunca pensei que precisasses de cigarros numa noite como esta. escura e perdida numa aldeia sem luz.
já não vamos a lado nenhum. alcançaste o fim. agora tenho sempre cigarros para ti. se voltares. não precisas de procurar mais nada.

sábado, janeiro 06, 2007

atada

atada.nós fortes. laços inquebravéis. amarras para sempre. a aliança no dedo. poderia já estar tudo dito se te quissesse falar do fim inevitavél que tudo isto um dia terá. por agora vivo atada. na corda bamba de uma história que bem podia ser de equilibristas ou de trapezistas que voam de olhos fechados. espírito aberto dado a possibilidade de caírem, magoarem-se ou morrerem. beijas-me. fecho os olhos. voo. pouso o meu corpo cansado mesmo à beirinha do precepício da paixão. escuto uma voz que me aconselha prudência. não gosto destas vozinhas interiores. caio as vezes que cair. as que forem necessárias para poder sentir sempre o que é voar. desafiar a vida em cada beijo que damos. sem medo de morrer. porque garantiram-me que já não se morre de amor.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

a preto e branco.

porque quero recordar para sempre este instante. seguro o teu rosto entre as minhas mãos suadas e fixo o teu olhar dentro do meu. é assim que te quero. para sempre. dentro de mim. seguras o meu cabelo com a força de uma paixão que não podemos viver e que existe só aqui. nas paredes deste quarto alugado entre a tua hora de almoço e a minha. na cabeceira os telemoveis fazem as vezes de despertadores de sonhos. o nosso. que podia ser de amor. mas é disto. dos corpos que se agarram desesperadamente. dos lábios que se devoram. das mãos que não se desprendem. destes olhos nos olhos que quero guardar para sempre. como prova de que um dia amei. de que um dia te amei.
Na cabeceira as sandes de plástico que mordemos nos intervalos de trincarmos a pele um do outro. com cuidado. as marcas são perigosas e podem revelar a outros olhares a nossa história. as roupas no chão despidas em contra relógio. tu dentro de mim. desejando-me e querendo-me como se só tivéssemos o hoje. este presente quase envenenado com que nos brindamos entre a tua hora de almoço e a minha por entre mensagens ardentes e declarações românticas. a preto e banco. seguro o teu rosto. quero decorar-te. dentro de mim. por dentro de mim. para que não saias daqui. beijo-te. prova-me que existes. és meu. e estás aqui.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

esperar

esperava por ti. á janela. como talvez a minha avó fizesse quando namorava o meu avô e ficava horas perdidas à espera de o ver passar. eu também esperei assim como ela. fumava um, dois, três cigarros. às vezes o maço inteiro. eu não esperava que passasses simplesmente. eu queria que entrasses. de uma vez por todas. e ficasses. absolutamente tu. porque te queria imensamente. esperava apesar de tudo. porque sempre acreditei que depois de cada despedida tua por mais dolorosa que fosse, haverias de voltar. e um dia, longe ou perto, me segredarias: és tu. nesse dia haverias de entrar, fechar a porta e ficar. nunca entraste. limitaste-te a passar por debaixo da minha espera.

depois... um dia saí da janela e fui viver a minha vida...

Esperava que esperasses por mim sempre. para sempre. até eu ter tempo de crescer. correr mundo, deitar-me com todas as ninfas e deusas, viver mil aventuras e depois só no fim desse depois voltar para ti. esperava que te mantivesses fielmente à janela à espera do nosso amor. esse nosso amor que ninguém nos há-de roubar. porque há noites que serão só nossas, acredita. foi por esse amor que esperei sempre. foi por esse amor forte, címplice e tão absoluto que corri mundo porque esperava encontrar outro igual. não encontrei. só há o nosso. agora só meu. porque não esperava que não me esperasses.

sábado, dezembro 09, 2006

aconteceres

aconteça o que acontecer, nunca te vou esquecer...



eu também não. apeteceu-me dizer-te. mesmo que quissesse. tenho como uma daquelas certezas demasiado minhas. definitivas e absolutas. que não. não te vou esquecer. e confesso-te no silêncio desta madrugada, também a mim me apeteceu chorar. nessa ocasião como nunca. quando as tuas lágrimas se misturam com a pele do meu colo, quando os meus dedos se enrolaram com os teus caracóis de menino e eu te tive como ninguém te teve. acho que foi nesse momento que percebi que nos amávamos e que erámos impossiveis lá fora.



aconteça o que acontecer.