terça-feira, maio 01, 2007

pormenores de um dia

estás sentada à minha frente e desenrolas uma história. a tua história. entre a dúvida se devo sorrir ou deixar que a lágrima teimosa desça sobre mim, paro apenas. sustenho a respiração enquanto suspendo o mundo e ouço-te. mulher agora. miúda há tempos atrás porque não te vi crescer. e no entanto estás aqui frente a mim a desenrolar uma história cheia de gritos que se cristalizaram dentro de ti, cheia feridas invisiveis que os outros teimam em não reparar, cheia de esconderijos secretos, os quais te permitiram sempre fugir. até hoje. porque me contas finalmente a tua história. de silêncios que se queriam, em algum momento, gritos. de sorrisos que foram máscaras de lágrimas, de palavras que se atentamente lidas eram pedidos de socorro. és jovem e forte. como são todos aqueles que acreditam no amanhã que ainda está por construir. como são todos aqueles que amam apesar de...
sou a tua ouvinte passiva porque me pediste. pagaste à recepcionista o preço da consulta. tiveste de começar a telefonar para casa das pessoas, a tentares vender a banha da cobra, para poderes falar. para eu te poder ouvir. devia ser de graça ouvir-te, penso. ninguém deveria ter de pagar para poder gritar tudo o que se acumula. tu pagaste. e agora estás aqui. eu de frente para a história. a tua.
calas-te. apetece-me pegar na tua mão e acreditar contigo. como tu acreditas apesar de tanta coisa, amar como tu amas apesar de...
os ponteiros do relógio marcam o fim. não sei ainda se voltas. ou se a tua história voltará contigo.

quinta-feira, abril 26, 2007

um novo mundo

amanhecer é isto. espreguiçar-me perante a janela. desvendar um novo mundo agarrada às paredes carregadas de telas. que me falam de ti. cruzar o olhar com o céu. descobrir nele as cores de sempre. e ficar feliz por isso. por estar aqui. a perscrutar com o meu divino olhar a massa de mundo que se estende à minha frente. sempre nova. porque há uma racha nova no vaso que se esconde no parapeito da janela. porque a cadeira onde me sento, para tomar o café, é tão antiga, reparo só hoje. e sempre sentei aqui desde sempre. a parede é azul. azul a imatar o céu lá fora. amanhecer é dizer-te bom dia. novo mundo. meu. tão meu. que fecho as portadas das janelas e vou para a rua. à procura de outros mundos, espreguiçando-me por outras janelas de onde se avistam outras telas.

quarta-feira, abril 25, 2007


porque foram as primeiras flores que recebi de um homem. o meu pai. porque são as flores que cultivo desde sempre dentro de mim. são as flores da liberdade. da minha e da dos outros. são o sangue que me corre nas veias. as flores do meu pensamento. porque hoje é 25 de abril.

sexta-feira, abril 20, 2007

porque hoje

por ti, para ti


porque hoje acordei e senti a falta de tudo. do ponto exacto no mapa onde era possível nos encontrarmos. há dias em que esse ponto não existe. como hoje. falta-me a praia. as falésias embrutecidas pelo toque violento do mar. falta-me o fio de prumo que tornava o céu tão certo e tão nosso. faltam-me os teus braços que me fazem rodopiar. e lembrar-me de ser pequena. faltam-me os teus olhos gritantes de sonho. falta-me o corpo que aqueça o tom pálido da minha carne. falta-me tudo hoje. faltas-me tu. falta-me o beijo quente do destino pelo qual anseio desde sempre. desde que te tornaste o passaporte para os meus sonhos. de menina. ainda. para ti.

quarta-feira, abril 18, 2007

assim...

Assim... de ombros nus, abraçada a mim mesma. porque ainda é o único abraço que me consola e me isola do mundo. das dores. e dos outros. que não me conseguem agarrar. nem suster o meu medo, as minhas lágrimas ou a minha emoção no seu abraço. assim abraçada a mim. ainda mais sozinha. ainda mais eu. comigo mesma. agarrando-me. suspensa na corda bamba. assim de ombros descobertos, abraçada. entre o afecto e o desespero. embalada pela nostalgia das coisas que passam sempre. hoje dói mais apenas. o quê? tudo. hoje dói mais tudo. numa dor aguda quase física. onde? por todo o corpo. dentro do corpo. por dentro de mim. assim abraço-me. para passar o tempo.

segunda-feira, abril 02, 2007

ela...

Ele há rostos que nos tocam. Nos ficam. E nos perseguem. É assim o rosto desta mulher. A preto e branco. Porque sim. Porque só conheço duas cores. Estas duas. Tudo o resto são derivações. Mas ela é única. E vejo-a. Sentada na cadeira de balouço. À espera que lhe pousem as borboletas na mão. Ninguém sabe o que espera. Ou sequer se vai voltar a falar. Há vozes como a dela, doces e ternas, que nos fazem voltar ao início de tudo. Ao algodão doce na extinta feira popular. Ás histórias de encantar. Ela é uma princesa ainda. De voz adormecida e rosto calado. A mão estendida. À espera da borboleta. Do amor que a toque. A levante e lhe fale baixinho ao ouvido. Só para a ouvir de novo cantar.



(ela não fala há quase dez anos. habita um mundo de silêncio. só seu. e meu que a espio na vã tentativa de a ouvir novamente. como há quase dez anos. em que era tudo tão mais fácil)

quarta-feira, março 28, 2007

porque danço

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
Álvaro de Campos

Porque danço a meio do dia. porque abro os olhos num sorriso imenso para o mundo. porque choro. porque me provo. porque erro. porque espero sempre alguém. porque sonho sempre de olhos abertos para o futuro. Porque sou inteira quando te amo. Porque sou absoluta. Porque sou cavalo selvagem. porque sou a liberdade na flor. porque sou a presa fácil do amor. porque sou assim. apenas eu. apenas sonho. nuvem de fantasia. porque sou toda em ti. porque nada deixo para mim. porque me abraço. porque tenho frio. porque me acaricio. porque tenho fome. de ti. porque me olho ao espelho. e não te vejo. porque rodopio sozinha a meio do dia. porque sonho. Sempre. muito.

sábado, março 24, 2007

porque não sei

porque não sei tanto. tanto mesmo. há tanta coisa para lá de mim. tanto que não sei dizer, exprimir e segredar-te ao ouvido. não sei como te dizer o que isto é. como é. como me atravessa os sentidos, se entranha nas vísceras e me faz querer-te. acima de todos os medos. acima de todos os riscos. dos costumes. acima dos outros. acima de mim mesma. porque subo. fecho os olhos extasiada. estou no topo do mundo. estou contigo. e sei. tão bem que sei. talvez seja a única coisa, que verdadeiramente sei, não era contigo que deveria estar. de mãos dadas até tudo se acabar e a eternidade se perder debaixo da água quente. onde o teu corpo já não é meu. E o meu voltou apenas a ser corpo. porque não sei ser mais nada. não sei se há mais alguma coisa para ser aqui. contigo. ainda que no topo do mundo.

quinta-feira, março 15, 2007

Não sabes...

Não sabes as palavras mas adivinhas as letras. Não sabes os nomes, mas adivinhas-lhes as formas. Não sabes quanto tempo, mas adivinhas que é pouco. Não sabes se é poema, conto ou romance, mas adivinhas que é de amor os segredos que te escrevo no papel. Não sabes se é de noite ou de dia, mas adivinhas que te chamo no silêncio dos meus sonhos. Não sabes se sou culpada ou inocente, mas adivinhas o feitiço nos olhos. Não sabes se sou terra, ar ou água, mas adivinhas que não sou de ninguém. Não sabes se te amo, mas adivinhas no corpo que te quero. Não sabes para onde vou, mas adivinhas que vou sem ti. Não sabes as notas, mas adivinhas a música branca que nos abraça e nos tenta. Não o sabes verdadeiramente mas… amo-te

domingo, fevereiro 18, 2007

fogo

quem brinca com o fogo, queima-se. foi assim que nos conhecemos. tu eras fogo. e eu estava disposta a queimar-me. nessa fogueira imensa. tivesse ela a dimensão que tivesse. durasse o tempo que durasse a extinguir-se. iria perserguir-te até ao fim. até te ter. decidi nesse mesmo dia.


com o passar do tempo, dei-me conta que não brincava com o fogo. pisava-o de pés descalços. com a humildade de quem sabe que para ter, é preciso lutar. com a inocência de quem inicia um caminho pela primeira vez. com a ingenuidade de quem ainda olha o mundo à volta com olhos grandes de espanto.




amo-te: piso o fogo de pés descalços.