sexta-feira, fevereiro 01, 2008

o frio

sou branca. quase transparente. através de mim vê-se tudo e adivinha-se mesmo aquilo que poderia querer esconder. verdadeiramente não quero esconder nada. não me interessa ser outra pessoa além de mim. a minha pele é branca. quase transparente. ontem tive frio de ti. senti-me gelada. cheia de tremuras. aqueci a minha pele até ficar vermelha. a água quente nas costas simulava o calor de um toque teu na minha pele branca e como sabes bem quase transparente. a água é a imitação de um toque breve sobre a pele. para eu não me esquecer que sou mais do que um corpo. a tiritar de frio. vazia de mim.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Preço


Não sou nada
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
Álvaro de Campos



Porque danço a meio do dia. porque abro os olhos num sorriso imenso para o mundo. porque choro. porque me provo. porque erro. porque espero sempre alguém. porque sonho sempre de olhos abertos para o futuro. Porque sou inteira quando te amo. Porque sou absoluta. Porque sou cavalo selvagem. porque sou a liberdade na flor. porque sou a presa fácil do amor. porque sou assim. apenas eu. apenas sonho. nuvem de fantasia. porque sou toda em ti. porque nada deixo para mim. porque me abraço. porque tenho frio. porque me acaricio. porque tenho fome. de ti. porque me olho ao espelho. e não te vejo. porque rodopio sozinha a meio do dia. porque sonho. Sempre. muito.
**pediram-me que republicasse um post que me definisse o melhor possivél. talvez seja este o post. talvez seja esta a imagem.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

sem título

Hoje estou por titular. É princípio do ano e eu deveria mudar. Mudar pelo menos alguma coisa. Em mim ou no meu caminho. Mas hoje sinto-me como um texto riscado. Que apagamos consecutivamente e, consecutivamente voltamos a escrever. Nota-se o lápis preto borrado. Como no tempo dos ditados e das composições. Apagar e escrever. Porque nunca se tem a certeza.

E, hoje só por hoje, precisava de certezas.

E de andar de baloiço. E de me lembrar. Ou de ouvir a tua voz. Isso bastava, penso eu.

Tenho uma certa queda para coisa impossíveis, não é?

segunda-feira, dezembro 17, 2007

de olhos postos no céu

É Inverno eu sei. aliás sinto-o na pele. um Inverno díficil de aquecer. e entender. nos bolsos escasseiam as moedas para atirar um desejo a uma fonte. o pai natal já não me ouve há muito tempo. e os meus sonhos são simples.
Olho o céu à espera de ver essa tal estrela que tu vês. para acreditar. que o céu não pode ser negro para sempre. um dia tudo vai ser diferente. Levanto a cabeça uma vez mais. de olhos postos no céu. ainda a acreditar. na magia dos desejos de Inverno.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Do beijo entre a tua e a minha vida

Pedes-me segredo. do quê, quero perguntar. mas não há voz suficiente para as palavras saírem. Encontramo-nos neste elevador todas as manhãs, à hora do almoço, depois à tardinha ou em noites de serão. nada mais. vivemos de olhares. festejamos os sorrisos e encontramo-nos em toques desajeitados, as parcas palavras que trocamos podem contar uma vida inteira. Mas uma vez, por uma única vez, hoje por sinal, parámos o mundo. dentro deste elevador. entre o teu e o meu andar. foi um beijo. aconteceu porque apeteceu. os rostos encontraram-se a meio de um sorriso. e não bastou. não mitigou o desejo. não queimou a paixão. as portas abrem-se. não há mais nada lá fora para nós. pedes-me segredo.

do beijo entre a tua e a minha vida

domingo, dezembro 09, 2007

qualquer coisa de imortal

É uma menina. Apenas uma menina com os seus oito anos, feitos já naquele quarto de cheiro a éter, deitada entre os lençóis com as siglas do hospital. E só essas três letras já dizem tanto. Já explicam tanto sobre ela estar aqui. Explicam a inexistência do cabelo, a cor amarelada da pele, os lábios gretados e os tubos a invadirem-lhe o pequeno corpo.
Sob a mesa de cabeceira há uma foto dela mais nova. Ela de cabelo louro caindo em cachos sobre os ombros ao pé de uma árvore de natal branca.
Era eu, explica-me.
És tu, respondo-lhe.
Acho que não, essa menina não sou eu, diz ela.
Olho novamente para a foto. Ela é capaz de ter razão. Essa menina loura não sabe o que é acordar com um sorriso nos lábios e ver a vida através desta cama. ter um diagnóstico que é quase uma setença de morte. Quase. Porque um sorriso nunca se acaba.
Um sorriso é para sempre, ensina-me , enquanto aperta com força a minha mão.
Amachuco, no bolso do casaco, os resultados do meu exame e tento sorrir como ela.
De repente já não tenho frio. só um pouco de medo.

Definitvamente há qualquer coisa de imortal nos sorriso deste hospital.

terça-feira, novembro 27, 2007

o amor que existe

O amor que existe. aberto num sorriso. molhado por uma lágrima. esquartejado por palavras feias. manietado por gestos impensados. o amor que existe. ouvido por dentro da sonora gargalhada, vestido de rosa plim no vestido que hoje trazes. o amor que existe. calçado de sabrinas. arrombado pela dor latejante. pirueta infinita. esse tal amor que existe. entrelinhas atrevidas. longas distâncias. e nós. quem és. quem sou. o abismo mesmo ali à beira. danças? se caíres, caímos os dois. embalados pela música encantada. desse tal amor que insiste. persiste. em existir. dentro de mim.

segunda-feira, novembro 19, 2007

E faz um frio imenso, sabias?

é um bocado de adeus. é um pedaço de outono que se desprendeu de mim. é uma pequena despedida porque foi tudo tão pouco. é a página em branco onde dantes abundavam palavras. é a ausência distante da presença ,outrora constante. é o ruído ensurdecedor do silêncio. É o grito que se ignora. é um bocado de adeus. é uma dor agudinha. é o peixe fora de água. é o cigarro fumado sem perdão. é o hábito. é a mania estúpida de se viver de sonhos. é por isso um adeus. breve como tudo o que restou de nós. E faz um frio imenso, sabias?

sábado, novembro 17, 2007

vens?

não mudo. não quero. não preciso. sou a pequena miúda. que de colchão em colchão foi redescobrindo a essência do coração. quero cair, se tiver que ser. quero voltar de novo para o baloiço para que nunca sinta medo. de voar. mesmo com as quedas que se dão pelo caminho. quero fechar-te os olhos. empurrar-te contras as nuvens. para as imediações do céu.
encontra-me num jardim. farei a tarde apetecer-te. nos resquícios de chocolate no teu rosto. na manga madura em pedaços. os meus trapos de cor encaixam-se no pequeno assento de madeira. Empurra-me. Baloiço. embalada pelas palavras que chegam do fundo do poço. lembra-te. sou a pequena feiteiceira. que vive para sentir. sente-me.




não quero ter de pensar. não preciso disso. tenho um baloiço à nossa espera.
Vens?

sexta-feira, novembro 02, 2007

O encanto

Outrora, num mundo que não era o meu, o amor tinha mais encanto ao começo. Mesmo sem fadas ou duendes. Assim rezam as histórias de amor que os meus avós me contavam. Especialmente o meu avô. Que se apaixonou, loucamente, aos dezanove anos por uma voz. "Era uma daquelas paixões irracionais, eu não sabia absolutamente nada dela, só lhe conhecia a voz. ", contava ele. Conhecia, porém, todo e qualquer estrecimento na voz dela, cada sobressalto na voz era motivo de preocupação para ele. E imaginava-a linda, esbelta e jovem. Pronta para casar com ele.
Conseguiu saber o nome dela e, mais tarde as horas a que saía da rádio. Nos primeiros dias seguiu-a apenas até à paragem do eléctrico e depois, devagarinho tentou aproximar-se dela. Da sua estrela. Da diva de voz cristalina que lhe enredava os sonhos à noitinha.
Quando conseguiu ter coragem para lhe falar, explicou-lhe quem era numa aflição doentia, de que ela se riu e teve pena, acedendo ao convite para tomar um chá rápido. Ela era a Voz. Que o desconcertava e o apaixonava. Levou-lhe flores e chocolates que pagava com o seu parco ordenado. Pedia calças vincadas e sapatos emprestados, para esses encontros. Alisava o cabelo com brilhantina e mais bonito não podia estar. Ofereceu-lhe um anel. Prometeu-lhe uma vida. Seria uma vida diferente. Não seriam pobes, apenas remediados ao princípio. Felizes, no entanto, assegurou-lhe ele. Mas ela não chegou a ser a minha avó.


No dia a seguir ao funeral do meu avô, estava depositado sob a campa dele, uma rosa vermelha. Tenho a certeza que era da minha quase quase quase avó. Ou pelo menos quero acreditar que sim.