quinta-feira, maio 07, 2009

Pensamentos

Apetece-me escrever num outro idioma. Borrifar-me para o fogo que arde sem se ver. Para a melancolia do xaile preto que cobre os ombros, para o orgulho que faz acenar as filigranas douradas.

Tudo isto para me esquecer de mim.

segunda-feira, março 30, 2009

Espelho d' água.

Colhe-se a luz nas imagens que te enfastiam a memória. Não te escondas nos buracos negros das lembranças. Existimos mesmo um dia. Ainda que por uma noite. Fomos banco de madeira, veludo de cinema e cetim numa qualquer cama. Existimos porque estávamos sozinhos e precisávamos de nós mesmos. De nos ver reflectidos em alguém. As tuas lágrimas a final, não são por mais do que um espelho d’água. Onde me vejo e me encontro. Ainda mais negra do que antes. Antes de te ferir.

Lanço pequenas pedrinhas ao charco para que possas emergir dessa dor excruciante. Provoco-te. Faço-te à viva força lembrar que existo. E que existimos. E que tens que me esquecer.
Espelho d’água em pequenos rodopios de dores. Ainda assim um sorriso. Como eu te lembro.

Nessas nossas noites que ninguém há-de nos roubar.
Nem nós de esquecer.


Provoco-te. Porque me obrigo a esquecer-te. Sem querer.

sexta-feira, março 13, 2009

Tão perto e tão longe

Se esticar o braço, toco-te. Se te tocar, ferves por dentro. Mas não mostras. Nunca.Quase nunca, por vezes, nessas mesmas vezes em que te enganas e me permites apanhar-te em falso. Nessas vezes arrisco tudo. O mundo, o sonho, a dor do depois. Quase tudo. Mas estás mesmo aqui ao lado. No toque quente que aquece o frio deste Inverno. No carinho da comida pronta quando se chega a casa tarde. Na felicidade insurrecta de fazer de uma fatia de bolo-rei dura, um delicioso bolo de anos. Na ternura primitiva que permite o aconchego das tuas mãos aos meus seios. Tão longe e tão demasiado perto.

Deixa que me confesse:

Nao mudaste apenas um ano no calendário do amor. Mudaste o amor. A forma e a textura do amor. Mudaste tudo. No fim e imperetivelmente, mudaste-me a mim.

Tão perto de mim, tão longe de seres meu...

quarta-feira, março 04, 2009

Faz um frio imenso, sabias?

é um bocado de adeus. é um pedaço do Verão tardio que se desprendeu de mim. é uma pequena despedida porque foi tudo tão pouco. é a página em branco onde dantes abundavam as palavras. é a ausência distante da presença. é o ruído ensurdecedor do silêncio. É o grito que se ignora. é um bocado de adeus. é uma dor agudinha. é o cigarro fumado sem perdão. é o hábito. é por isso um adeus. breve como tudo o que restou de nós. E faz um frio imenso, sabias?

aqui, dentro de mim. onde tu já não podes estar...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Deixa

Deixa que exista um pedaço de qualquer coisa onde eu possa apenas ficar quieta. onde as minhas lágrimas não pertubem o remoer dos dias. onde o meu silêncio não signifique gritos magoados e filtrados pela correnteza do dia-a-dia. Deixa a minha almofada, o lado esquerdo do colchão. O resto da casa é tua. Deixa-me as horas mortas da madrugada e o resto do dia será teu. Terei o mesmo sorriso de sempre, a comida à tua espera no prato e o maço de tabaco preto na mesa da sala, o chá quente para engolires os comprimidos. Mas deixa-me o quadro preto para que eu possa riscar o giz branco e ensurdecer-me com aquele ruído absurdo. Assim não terei que me ouvir. Deixa-me o espelho da casa de banho e o batom vermelho, para que escandolasamente e pela última vez, eu te possa escrever "amo-te". Deixa-me um recanto de história para que eu possa sentir saudades e voltar sempre que o mundo lá fora doa demais. Faz-me ser de outros homens, liberta-me do ensejo de ser tua e larga-me a mão.

quarta-feira, novembro 12, 2008

do silêncio

tela azul cobalto. a cor perfeita do meu silêncio. sem traços, riscos ou rabiscos. apenas a tela azul. o tom das lágrimas que se aprendem a calar. a cor dos teus olhos fixos nos meus quando tudo o resto era tempestade lá fora. o céu, também azul forte, naquele fim de tarde na esplanada, onde tudo doeu mais forte. Mais uma vez. E foi o fim.
A paragem imperativa das vozes e das pessoas que se acotevalaram diante de mim a quererem falar, dizer, pedir, exigir e algumas até se dispuseram a ouvir. Mas não havia nada.
Simplesmente, nada para dizer. Não quis falar para não peturbar o acontecer deste azul cobalto que se instalou. Não quis mesclar este azul de silêncio e odor a maresia com quaisquer outras cores. Vivo em piloto automático. Não sinto. Não penso e não vivo. Silencio-me apenas até que tudo passe. E fique somente a tela azul cobalto. Testemunha em silêncio.

segunda-feira, agosto 25, 2008

do que não gosto de falar

Há coisas que não gosto de falar. Nem de partilhar. Porque trazem á superfície da pele memórias estranhas e confusas que preferia não reviver. Mas hoje aconteceu. Voltei á escola. De uma outra forma.
Não sou professora. Talvez gostasse de ter sido. Pelas mais diversas razões ou tão somente por uma que me atravessa o espírito de quando a quando. Para me vingar. Não dos professores, propriamente ditos. Tive-os bons, maus e medíocres.
A minha ideia de vingança é qualquer coisa de pessoal. De coisas que se aprendem a perdoar, mas que, ainda assim, não se esquecem. Assim se eu tivesse escolhido ser professora, vingava-me dos alunos. Daqueles seres que destroem a ilusão açucarada que a infância e a adolescência são apenas os verdes anos em que todas as coisas são fáceis. E não são.
São os tempos em que as primeiras feridas nos ficam a habitar permanentemente. Perdem-se as primeiras batalhas e há bocados de nós que ficam naquelas trincheiras. Aprendemos a reconhecer a crueldade, o preconceito, o desprezo, a diferença e a ignorância nos olhares alheios. Aprendemos a construir muralhas e a soprar nos intervalos das aulas, castelos de areia temporários. Mas para quê?
Eu preferia estar com aquele grupinho a saltar ao elástico ou a discutir o último episódio dos "Morangos".
Mas estou aqui, sentada no banco de madeira, a observá-las. A tentar não ouvir os seus risinhos e comentários maldosos, a tentar não sentir os seus olhares penetrantes. Eu estou aqui. Nos meus dourados verdes anos, apenas a aprender que o que não nos mata, torna-nos mais forte.
O remédio para o "bulling" começa em casa. Na formação que não se dá aos filhos. Estende-se depois para os professores que não tem tempo, nem paciência, nem condições, nem dinheiro, nem motivação, nem qualquer outra coisa, para poder explicar a esses miúdos que é errado e cruel deixar meninos e meninas no pátio a aprenderem sozinhos, e á sua custa, que o que não nos mata, torna-nos apenas mais forte, mesmo quando se preferia não saber nada disso e ser apenas igual aos outros.
"Eu queria apenas ser igual. Igual á Mariana ou á Inês, por quem todos os rapazes da turma se apaixonaram este ano. Ou então ser tão inteligente como a Ana, que é sempre tão segura de si e não dá confianças a ninguém. Só não gosto de ser como sou. Porque todos me olham e me gozam diariamente. Ninguém quer brincar comigo. Ou sequer me convidam para os trabalhos de grupo. Sou só eu e eu sozinha. Por isso queria ser igual. Até pode ser á Tânia que é má e de que ninguém gosta, mas que todos convidam para tudo. Porque tem medo dela. Eu quero apenas ser igual a alguém. Para que não se riam de mim. Peço desculpa por ser assim, mas não sei ser diferente. "
(excerto de uma redacção de uma aluna do sétimo ano, com o título "Carta aberta ao Pai Natal")

terça-feira, agosto 19, 2008

Só sangue

Choro, mas não grito a dor. Quero parar, mas não sei com o quê. Quero seguir em frente, mas há peso morto a ser carregado por entre o meu corpo. Lágrimas secas que não se dissolvem na pele. Apenas a secam. Irremediavelmente.
Há estilhaços de ti que ainda não cuspi. Tu, aos pedaços, em bocaditos que se enredam nas minhas vísceras e se deixam ficar. Como se afinal pudesses fazer parte de mim. Ainda que...


Dizem que me matas por dentro. Ainda estarás viva?

Só sou sangue. O que ficou depois de ti.

terça-feira, julho 08, 2008

Amo-te

Mesmo que deixasse de escrever "amo-te" em cada pequeno lugar disponível, não te esqueceria. Assim não te esquecem as janelas dos autocarros em manhãs frias, ou os capôs dos carros sujos com que me deparo, a areia deserta em que faço das canas o meu lápis e escrevo sempre "Amo-te". Amo-te de um amor antigo, indizível e por isso mesmo também intransmissível. Não é possível dá-lo a ti.
Serei egoísta talvez. Mas partilho esse amor com tanta gente. Centenas de desconhecidos que tão bem sabem que tu e eu existimos. Na frase que nos separa. Na distância que nos iguala. Apenas duas secretárias atrás de mim. Atirando-me papéis como se ainda partilhássemos aquele tempo bom do leite morno com café e do pão com manteiga e uma fatia de fiambre. Quando afirmaste categoricamente que aquela praia era tua. Fiquei a menina do balde azul. Do coração roubado. Amo-te, desenho de azulejo ou pedaço de calçada portuguesa. Embrulhada no xaile preto do fado, onde a saudade sabe de cor o teu nome. "Amo-te" ainda nos troncos das árvores dos jardins por onde passo. "Amo-te", nas portas das casas de banho públicas. Amo-te, mesmo que não saibas ou não o queiras e um dia eu deixe de o escrever
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sábado, junho 21, 2008

É quase certo,sabias?

É quase certo fazeres parte de mim. Em nós sobrevivem sobrevivem camadas de tempo que se acumulam na pele e no sangue. A dor pode durar para sempre. E ainda assim ser real. Quase palpável. E ser uma certeza. Ás vezes a única certeza. Podemos usá-la. Masturbarmo-nos deliciados com ela.

É quase certo fazeres parte da minha dor.

É quase certo fazeres parte de mim.

Sabias?