terça-feira, julho 07, 2009

Se existes

Se existes... é porque te inventei. Colori uma história e fi-la acontecer em mim. Personagem de ficção cozinhada no vapor acelerado das novas tecnologias. Algures, distrai-me contigo e enganei-me na receita. Deixei-me queimar.


Apago-te. Não darias uma boa história.

domingo, julho 05, 2009

porque...

Porque os teus beijos não são promessas. porque os teus olhos brilhantes não são contratos irrevogáveis. porque as tuas mãos entrelaçadas com as minhas são um mapa de estradas confuso.

porque és ainda um sorriso.

espero.... até seres um barco a chegar.

terça-feira, junho 16, 2009

I- Carta

Instruções


Tens de me ler até ao fim. Sem hesitações. Podes parar para sacar do cigarro ou beber um gole de água, porque isto vai demorar muito e tu vais ter sede ao fim de uns minutos, já te conheço, afinal já se passou algum tempo entre nós. Se te apetecer, podes também petiscar umas pipocas ou uns cajus com sal para aligeirar o ambiente intimista e melancólico. Peço-te apenas que não te disperses demasiado e sobretudo não a leias em voz alta. A tua voz distorce tudo...


Podemos começar assim pelo princípio das cartas, a indicação do dia de hoje. Hoje, um dia como outro qualquer, é apenas quarta-feira, a data verdadeiramente dita e explicada como vem no calendário até poderia ter importância, mas hoje é um dia como outro qualquer.

Agora situo-te no local onde estou, no meio da serra de Sintra ou monte da lua, como sempre preferi chamar. Estacionei o carro, a alguns metros daqui, encontrei um tronco toscamente partido e sentei-me com o portátil no colo. Escrevo-te, portanto daqui, rodeada desta folhagem verde, desta humidade que arrefece o corpo, tornando-o tão frio por fora, como eu própria já o sinto.

E depois o resto, o essencial de tudo isto e o motivo óbvio pelo qual te escrevo, mas que custa tanto descrever.

Seria tudo tão mais fácil sem estas coisas dos sentimentos que atrapalham os pensamentos, aquecem corpos e fazem acontecer desejos.


Disse-te não regresses, como te poderia ter dito “não partas”. Qualquer uma dessas opções teria as mesmas lágrimas a final. E nós já conhecemos tão bem esse final fadado a nós.


Talvez isso torne tudo mais fácil de viver. Se soubermos como vai acabar. E nós sempre soubemos que o nosso amor era um processo urgente. Que não podíamos suspender. Nem parar o tempo. Nem estrangular o que nos corre nas veias. Sempre soubemos que iríamos ser vencidos. E ainda assim…

quinta-feira, maio 07, 2009

Pensamentos

Apetece-me escrever num outro idioma. Borrifar-me para o fogo que arde sem se ver. Para a melancolia do xaile preto que cobre os ombros, para o orgulho que faz acenar as filigranas douradas.

Tudo isto para me esquecer de mim.

segunda-feira, março 30, 2009

Espelho d' água.

Colhe-se a luz nas imagens que te enfastiam a memória. Não te escondas nos buracos negros das lembranças. Existimos mesmo um dia. Ainda que por uma noite. Fomos banco de madeira, veludo de cinema e cetim numa qualquer cama. Existimos porque estávamos sozinhos e precisávamos de nós mesmos. De nos ver reflectidos em alguém. As tuas lágrimas a final, não são por mais do que um espelho d’água. Onde me vejo e me encontro. Ainda mais negra do que antes. Antes de te ferir.

Lanço pequenas pedrinhas ao charco para que possas emergir dessa dor excruciante. Provoco-te. Faço-te à viva força lembrar que existo. E que existimos. E que tens que me esquecer.
Espelho d’água em pequenos rodopios de dores. Ainda assim um sorriso. Como eu te lembro.

Nessas nossas noites que ninguém há-de nos roubar.
Nem nós de esquecer.


Provoco-te. Porque me obrigo a esquecer-te. Sem querer.

sexta-feira, março 13, 2009

Tão perto e tão longe

Se esticar o braço, toco-te. Se te tocar, ferves por dentro. Mas não mostras. Nunca.Quase nunca, por vezes, nessas mesmas vezes em que te enganas e me permites apanhar-te em falso. Nessas vezes arrisco tudo. O mundo, o sonho, a dor do depois. Quase tudo. Mas estás mesmo aqui ao lado. No toque quente que aquece o frio deste Inverno. No carinho da comida pronta quando se chega a casa tarde. Na felicidade insurrecta de fazer de uma fatia de bolo-rei dura, um delicioso bolo de anos. Na ternura primitiva que permite o aconchego das tuas mãos aos meus seios. Tão longe e tão demasiado perto.

Deixa que me confesse:

Nao mudaste apenas um ano no calendário do amor. Mudaste o amor. A forma e a textura do amor. Mudaste tudo. No fim e imperetivelmente, mudaste-me a mim.

Tão perto de mim, tão longe de seres meu...

quarta-feira, março 04, 2009

Faz um frio imenso, sabias?

é um bocado de adeus. é um pedaço do Verão tardio que se desprendeu de mim. é uma pequena despedida porque foi tudo tão pouco. é a página em branco onde dantes abundavam as palavras. é a ausência distante da presença. é o ruído ensurdecedor do silêncio. É o grito que se ignora. é um bocado de adeus. é uma dor agudinha. é o cigarro fumado sem perdão. é o hábito. é por isso um adeus. breve como tudo o que restou de nós. E faz um frio imenso, sabias?

aqui, dentro de mim. onde tu já não podes estar...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Deixa

Deixa que exista um pedaço de qualquer coisa onde eu possa apenas ficar quieta. onde as minhas lágrimas não pertubem o remoer dos dias. onde o meu silêncio não signifique gritos magoados e filtrados pela correnteza do dia-a-dia. Deixa a minha almofada, o lado esquerdo do colchão. O resto da casa é tua. Deixa-me as horas mortas da madrugada e o resto do dia será teu. Terei o mesmo sorriso de sempre, a comida à tua espera no prato e o maço de tabaco preto na mesa da sala, o chá quente para engolires os comprimidos. Mas deixa-me o quadro preto para que eu possa riscar o giz branco e ensurdecer-me com aquele ruído absurdo. Assim não terei que me ouvir. Deixa-me o espelho da casa de banho e o batom vermelho, para que escandolasamente e pela última vez, eu te possa escrever "amo-te". Deixa-me um recanto de história para que eu possa sentir saudades e voltar sempre que o mundo lá fora doa demais. Faz-me ser de outros homens, liberta-me do ensejo de ser tua e larga-me a mão.

quarta-feira, novembro 12, 2008

do silêncio

tela azul cobalto. a cor perfeita do meu silêncio. sem traços, riscos ou rabiscos. apenas a tela azul. o tom das lágrimas que se aprendem a calar. a cor dos teus olhos fixos nos meus quando tudo o resto era tempestade lá fora. o céu, também azul forte, naquele fim de tarde na esplanada, onde tudo doeu mais forte. Mais uma vez. E foi o fim.
A paragem imperativa das vozes e das pessoas que se acotevalaram diante de mim a quererem falar, dizer, pedir, exigir e algumas até se dispuseram a ouvir. Mas não havia nada.
Simplesmente, nada para dizer. Não quis falar para não peturbar o acontecer deste azul cobalto que se instalou. Não quis mesclar este azul de silêncio e odor a maresia com quaisquer outras cores. Vivo em piloto automático. Não sinto. Não penso e não vivo. Silencio-me apenas até que tudo passe. E fique somente a tela azul cobalto. Testemunha em silêncio.

segunda-feira, agosto 25, 2008

do que não gosto de falar

Há coisas que não gosto de falar. Nem de partilhar. Porque trazem á superfície da pele memórias estranhas e confusas que preferia não reviver. Mas hoje aconteceu. Voltei á escola. De uma outra forma.
Não sou professora. Talvez gostasse de ter sido. Pelas mais diversas razões ou tão somente por uma que me atravessa o espírito de quando a quando. Para me vingar. Não dos professores, propriamente ditos. Tive-os bons, maus e medíocres.
A minha ideia de vingança é qualquer coisa de pessoal. De coisas que se aprendem a perdoar, mas que, ainda assim, não se esquecem. Assim se eu tivesse escolhido ser professora, vingava-me dos alunos. Daqueles seres que destroem a ilusão açucarada que a infância e a adolescência são apenas os verdes anos em que todas as coisas são fáceis. E não são.
São os tempos em que as primeiras feridas nos ficam a habitar permanentemente. Perdem-se as primeiras batalhas e há bocados de nós que ficam naquelas trincheiras. Aprendemos a reconhecer a crueldade, o preconceito, o desprezo, a diferença e a ignorância nos olhares alheios. Aprendemos a construir muralhas e a soprar nos intervalos das aulas, castelos de areia temporários. Mas para quê?
Eu preferia estar com aquele grupinho a saltar ao elástico ou a discutir o último episódio dos "Morangos".
Mas estou aqui, sentada no banco de madeira, a observá-las. A tentar não ouvir os seus risinhos e comentários maldosos, a tentar não sentir os seus olhares penetrantes. Eu estou aqui. Nos meus dourados verdes anos, apenas a aprender que o que não nos mata, torna-nos mais forte.
O remédio para o "bulling" começa em casa. Na formação que não se dá aos filhos. Estende-se depois para os professores que não tem tempo, nem paciência, nem condições, nem dinheiro, nem motivação, nem qualquer outra coisa, para poder explicar a esses miúdos que é errado e cruel deixar meninos e meninas no pátio a aprenderem sozinhos, e á sua custa, que o que não nos mata, torna-nos apenas mais forte, mesmo quando se preferia não saber nada disso e ser apenas igual aos outros.
"Eu queria apenas ser igual. Igual á Mariana ou á Inês, por quem todos os rapazes da turma se apaixonaram este ano. Ou então ser tão inteligente como a Ana, que é sempre tão segura de si e não dá confianças a ninguém. Só não gosto de ser como sou. Porque todos me olham e me gozam diariamente. Ninguém quer brincar comigo. Ou sequer me convidam para os trabalhos de grupo. Sou só eu e eu sozinha. Por isso queria ser igual. Até pode ser á Tânia que é má e de que ninguém gosta, mas que todos convidam para tudo. Porque tem medo dela. Eu quero apenas ser igual a alguém. Para que não se riam de mim. Peço desculpa por ser assim, mas não sei ser diferente. "
(excerto de uma redacção de uma aluna do sétimo ano, com o título "Carta aberta ao Pai Natal")