sexta-feira, setembro 18, 2009

O que sei da vida

O que sei da vida: Que se acaba. Que se derrete no milésimo de segundo em que adormeceste e passaste o sinal vermelho. Eu ia morrendo e tu navegas pela morte à procura de um caminho na cama do hospital.
O que sei da vida: Que se acaba lentamente numa cadeira de rodas com um cancro a corroer-te o cérebro e coarctar-te para sempre os movimentos, a fala, a visão e a audição.
O que sei da vida: Que se acabou hoje neste cemitério.
Ainda é Verão e chove. A vida acabou-se por detrás dos óculos escuros que sustém as lágrimas que não podemos chorar à frente uns dos outros. E admitir que a vida se acaba assim depois de um transplante que prometia os anos em que poderias continuar por cá. A sorrir. Tinhas um sorriso lindíssimo de manhã quando chegavas ao trabalho e dizias que era bom continuar por cá.

Neste Verão parece que o que sei da vida se resume a isto: ela acaba-se.

(E talvez tenhas razão, é bom continuar cá... mas não nestes dias em que tudo se acaba.)

quinta-feira, setembro 03, 2009

Vivemos a perder.

Vivemos a perder. Todos os dias abandonamos alguém à beira da estrada. Todos os dias nos despedimos de alguém que no dia seguinte não vamos ver. Dizemos adeus a um rosto, sem lhe conhecer o sorriso, dispensamos corpos sem lhes enxergar os encantos. Amordaçamos as vozes sem sequer lhes proporcionar o tempo de uma conversa banal. Escondemo-nos na gola do sobretudo para não ver a lágrima do outro cair. No silêncio de nós. Vamo-nos embora todos os dias, sem sequer reparar no esmero dos novos sapatos de quem nos impediu de morrer.
- Fica bem?- pergunta o homem de bata branca que me salvou as memórias.
- Ficarei. Fico sempre bem antes de morrer.
Ri-se. Afaga-me o cabelo despeitadamente. Podia ser meu pai. Meu professor. Meu amante.

Agora, encostada ao vidro do táxi, amachuco com força as prescrições de nomes compridos e comprimidos em linhas paralelas. Que nunca se encontram: memória do muito que se lançou ao desbarato.

Ficam as perdas inevitáveis. O tempo quase irrecuperável. Como daquela vez, em que roguei que te fosses embora, quando só queria que ficasses. Desviámo-nos do caminho um do outro. Apartámos palavras e afastámos emoções. Só para ficar longe. Para perder.

E já perdemos tanto...

sexta-feira, agosto 28, 2009

Ainda vale a pena...

Releio alguns posts do blog e fica a emoção de seis anos. Os afectos, as histórias, as pessoas mascaradas por detrás das palavras filtradas sempre, para sempre, pelo subjectivismo dos meus olhos. Seis anos em seis palavras de seis emoções: amor, lágrimas, sonhos, esperanças, solidão e saudades.

No fim sempre os sorrisos. Os meus que hoje são apenas uma sombra. Perdem-se na transparência de algumas lágrimas que deixo cair sem querer. Releio-me. E sim, ainda faz sentido continuar. A sorrir.

sábado, agosto 01, 2009

pensamento, instante, meu.

Não é importante… por isso posso tê-lo só para mim.
O pensamento, instante, meu.
Aninhaste-te na curva do meu corpo. Encaixado na dobra dos meus joelhos magoados e ausentes. Queria poder-me virar. E aninhar-me em ti. Ficar com os meu peito preso às tuas costas. Penso, mas não é importante. Nem sequer pode querer ser importante, mas neste instante, meu, queria ser homem. Para poder afundar-me em ti. Entrar dentro de ti. Possuir-te assim com os meus joelhos magoados encaixados na dobra da tua perna, a respirar o teu cheiro. A minha mão pequena pousada, dentro dos teus boxers, acariciando o osso da anca. Ainda o osso mais belo do nosso corpo. Como nas aulas de anatomia em que me apaixonei por esse osso.
E que hoje é o meu limite. Debaixo dele já não há dor. Nem ardor. Em nada. Só ausência. De mim mesma. sem movimento a que possa chamar meu. Foste tu que dobraste os meus joelhos magoados e ausentes para eu poder adormecer. Fazes isso todas as noites. Antes, a minha posição preferida era assim.
No pensamento, instante, meu, queria ser homem, para poderes ser meu. Mulher, já não sei ser e tu já não precisas que o seja, nunca mais. mesmo que nunca mais seja muito tempo. E o tempo, sabemos, só é incerto e turbulento. Como quando, no acidente, me pediste para não morrer. Contas-me que abri os olhos e fiz um esgar de lábios que para ti significou um sorriso. Por isso acreditaste. E depois nesses meses de camas cinzentas, pegaste-me na mão e pediste para ter força. Aguentar tudo aquilo. Olhar para os joelhos magoados e ausentes e não desistir de os amar. Não desistir que eles fosse meus.
Deixei de querer coisas. Orientei a minha rotina pelos teus pedidos, as tuas súplicas em tom de ordens impossíveis de incumprir. Meu, pensamento, instante. Queria ser homem para te poder ter. Energica e violentamente. Primeiro na minha boca, lembrar-te-ás do seu sabor? Quero entrar em ti. ser a tua extensão natural. como se nos pudessemos por esse cordão umbilical. e dar-te prazer. todo o prazer. tremer o teu corpo contra o meu e fazer-te vir. em mim.
não é importante. pensamento, instante, meu.

terça-feira, julho 07, 2009

Se existes

Se existes... é porque te inventei. Colori uma história e fi-la acontecer em mim. Personagem de ficção cozinhada no vapor acelerado das novas tecnologias. Algures, distrai-me contigo e enganei-me na receita. Deixei-me queimar.


Apago-te. Não darias uma boa história.

domingo, julho 05, 2009

porque...

Porque os teus beijos não são promessas. porque os teus olhos brilhantes não são contratos irrevogáveis. porque as tuas mãos entrelaçadas com as minhas são um mapa de estradas confuso.

porque és ainda um sorriso.

espero.... até seres um barco a chegar.

terça-feira, junho 16, 2009

I- Carta

Instruções


Tens de me ler até ao fim. Sem hesitações. Podes parar para sacar do cigarro ou beber um gole de água, porque isto vai demorar muito e tu vais ter sede ao fim de uns minutos, já te conheço, afinal já se passou algum tempo entre nós. Se te apetecer, podes também petiscar umas pipocas ou uns cajus com sal para aligeirar o ambiente intimista e melancólico. Peço-te apenas que não te disperses demasiado e sobretudo não a leias em voz alta. A tua voz distorce tudo...


Podemos começar assim pelo princípio das cartas, a indicação do dia de hoje. Hoje, um dia como outro qualquer, é apenas quarta-feira, a data verdadeiramente dita e explicada como vem no calendário até poderia ter importância, mas hoje é um dia como outro qualquer.

Agora situo-te no local onde estou, no meio da serra de Sintra ou monte da lua, como sempre preferi chamar. Estacionei o carro, a alguns metros daqui, encontrei um tronco toscamente partido e sentei-me com o portátil no colo. Escrevo-te, portanto daqui, rodeada desta folhagem verde, desta humidade que arrefece o corpo, tornando-o tão frio por fora, como eu própria já o sinto.

E depois o resto, o essencial de tudo isto e o motivo óbvio pelo qual te escrevo, mas que custa tanto descrever.

Seria tudo tão mais fácil sem estas coisas dos sentimentos que atrapalham os pensamentos, aquecem corpos e fazem acontecer desejos.


Disse-te não regresses, como te poderia ter dito “não partas”. Qualquer uma dessas opções teria as mesmas lágrimas a final. E nós já conhecemos tão bem esse final fadado a nós.


Talvez isso torne tudo mais fácil de viver. Se soubermos como vai acabar. E nós sempre soubemos que o nosso amor era um processo urgente. Que não podíamos suspender. Nem parar o tempo. Nem estrangular o que nos corre nas veias. Sempre soubemos que iríamos ser vencidos. E ainda assim…

quinta-feira, maio 07, 2009

Pensamentos

Apetece-me escrever num outro idioma. Borrifar-me para o fogo que arde sem se ver. Para a melancolia do xaile preto que cobre os ombros, para o orgulho que faz acenar as filigranas douradas.

Tudo isto para me esquecer de mim.

segunda-feira, março 30, 2009

Espelho d' água.

Colhe-se a luz nas imagens que te enfastiam a memória. Não te escondas nos buracos negros das lembranças. Existimos mesmo um dia. Ainda que por uma noite. Fomos banco de madeira, veludo de cinema e cetim numa qualquer cama. Existimos porque estávamos sozinhos e precisávamos de nós mesmos. De nos ver reflectidos em alguém. As tuas lágrimas a final, não são por mais do que um espelho d’água. Onde me vejo e me encontro. Ainda mais negra do que antes. Antes de te ferir.

Lanço pequenas pedrinhas ao charco para que possas emergir dessa dor excruciante. Provoco-te. Faço-te à viva força lembrar que existo. E que existimos. E que tens que me esquecer.
Espelho d’água em pequenos rodopios de dores. Ainda assim um sorriso. Como eu te lembro.

Nessas nossas noites que ninguém há-de nos roubar.
Nem nós de esquecer.


Provoco-te. Porque me obrigo a esquecer-te. Sem querer.

sexta-feira, março 13, 2009

Tão perto e tão longe

Se esticar o braço, toco-te. Se te tocar, ferves por dentro. Mas não mostras. Nunca.Quase nunca, por vezes, nessas mesmas vezes em que te enganas e me permites apanhar-te em falso. Nessas vezes arrisco tudo. O mundo, o sonho, a dor do depois. Quase tudo. Mas estás mesmo aqui ao lado. No toque quente que aquece o frio deste Inverno. No carinho da comida pronta quando se chega a casa tarde. Na felicidade insurrecta de fazer de uma fatia de bolo-rei dura, um delicioso bolo de anos. Na ternura primitiva que permite o aconchego das tuas mãos aos meus seios. Tão longe e tão demasiado perto.

Deixa que me confesse:

Nao mudaste apenas um ano no calendário do amor. Mudaste o amor. A forma e a textura do amor. Mudaste tudo. No fim e imperetivelmente, mudaste-me a mim.

Tão perto de mim, tão longe de seres meu...

quarta-feira, março 04, 2009

Faz um frio imenso, sabias?

é um bocado de adeus. é um pedaço do Verão tardio que se desprendeu de mim. é uma pequena despedida porque foi tudo tão pouco. é a página em branco onde dantes abundavam as palavras. é a ausência distante da presença. é o ruído ensurdecedor do silêncio. É o grito que se ignora. é um bocado de adeus. é uma dor agudinha. é o cigarro fumado sem perdão. é o hábito. é por isso um adeus. breve como tudo o que restou de nós. E faz um frio imenso, sabias?

aqui, dentro de mim. onde tu já não podes estar...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Deixa

Deixa que exista um pedaço de qualquer coisa onde eu possa apenas ficar quieta. onde as minhas lágrimas não pertubem o remoer dos dias. onde o meu silêncio não signifique gritos magoados e filtrados pela correnteza do dia-a-dia. Deixa a minha almofada, o lado esquerdo do colchão. O resto da casa é tua. Deixa-me as horas mortas da madrugada e o resto do dia será teu. Terei o mesmo sorriso de sempre, a comida à tua espera no prato e o maço de tabaco preto na mesa da sala, o chá quente para engolires os comprimidos. Mas deixa-me o quadro preto para que eu possa riscar o giz branco e ensurdecer-me com aquele ruído absurdo. Assim não terei que me ouvir. Deixa-me o espelho da casa de banho e o batom vermelho, para que escandolasamente e pela última vez, eu te possa escrever "amo-te". Deixa-me um recanto de história para que eu possa sentir saudades e voltar sempre que o mundo lá fora doa demais. Faz-me ser de outros homens, liberta-me do ensejo de ser tua e larga-me a mão.

quarta-feira, novembro 12, 2008

do silêncio

tela azul cobalto. a cor perfeita do meu silêncio. sem traços, riscos ou rabiscos. apenas a tela azul. o tom das lágrimas que se aprendem a calar. a cor dos teus olhos fixos nos meus quando tudo o resto era tempestade lá fora. o céu, também azul forte, naquele fim de tarde na esplanada, onde tudo doeu mais forte. Mais uma vez. E foi o fim.
A paragem imperativa das vozes e das pessoas que se acotevalaram diante de mim a quererem falar, dizer, pedir, exigir e algumas até se dispuseram a ouvir. Mas não havia nada.
Simplesmente, nada para dizer. Não quis falar para não peturbar o acontecer deste azul cobalto que se instalou. Não quis mesclar este azul de silêncio e odor a maresia com quaisquer outras cores. Vivo em piloto automático. Não sinto. Não penso e não vivo. Silencio-me apenas até que tudo passe. E fique somente a tela azul cobalto. Testemunha em silêncio.

segunda-feira, agosto 25, 2008

do que não gosto de falar

Há coisas que não gosto de falar. Nem de partilhar. Porque trazem á superfície da pele memórias estranhas e confusas que preferia não reviver. Mas hoje aconteceu. Voltei á escola. De uma outra forma.
Não sou professora. Talvez gostasse de ter sido. Pelas mais diversas razões ou tão somente por uma que me atravessa o espírito de quando a quando. Para me vingar. Não dos professores, propriamente ditos. Tive-os bons, maus e medíocres.
A minha ideia de vingança é qualquer coisa de pessoal. De coisas que se aprendem a perdoar, mas que, ainda assim, não se esquecem. Assim se eu tivesse escolhido ser professora, vingava-me dos alunos. Daqueles seres que destroem a ilusão açucarada que a infância e a adolescência são apenas os verdes anos em que todas as coisas são fáceis. E não são.
São os tempos em que as primeiras feridas nos ficam a habitar permanentemente. Perdem-se as primeiras batalhas e há bocados de nós que ficam naquelas trincheiras. Aprendemos a reconhecer a crueldade, o preconceito, o desprezo, a diferença e a ignorância nos olhares alheios. Aprendemos a construir muralhas e a soprar nos intervalos das aulas, castelos de areia temporários. Mas para quê?
Eu preferia estar com aquele grupinho a saltar ao elástico ou a discutir o último episódio dos "Morangos".
Mas estou aqui, sentada no banco de madeira, a observá-las. A tentar não ouvir os seus risinhos e comentários maldosos, a tentar não sentir os seus olhares penetrantes. Eu estou aqui. Nos meus dourados verdes anos, apenas a aprender que o que não nos mata, torna-nos mais forte.
O remédio para o "bulling" começa em casa. Na formação que não se dá aos filhos. Estende-se depois para os professores que não tem tempo, nem paciência, nem condições, nem dinheiro, nem motivação, nem qualquer outra coisa, para poder explicar a esses miúdos que é errado e cruel deixar meninos e meninas no pátio a aprenderem sozinhos, e á sua custa, que o que não nos mata, torna-nos apenas mais forte, mesmo quando se preferia não saber nada disso e ser apenas igual aos outros.
"Eu queria apenas ser igual. Igual á Mariana ou á Inês, por quem todos os rapazes da turma se apaixonaram este ano. Ou então ser tão inteligente como a Ana, que é sempre tão segura de si e não dá confianças a ninguém. Só não gosto de ser como sou. Porque todos me olham e me gozam diariamente. Ninguém quer brincar comigo. Ou sequer me convidam para os trabalhos de grupo. Sou só eu e eu sozinha. Por isso queria ser igual. Até pode ser á Tânia que é má e de que ninguém gosta, mas que todos convidam para tudo. Porque tem medo dela. Eu quero apenas ser igual a alguém. Para que não se riam de mim. Peço desculpa por ser assim, mas não sei ser diferente. "
(excerto de uma redacção de uma aluna do sétimo ano, com o título "Carta aberta ao Pai Natal")

terça-feira, agosto 19, 2008

Só sangue

Choro, mas não grito a dor. Quero parar, mas não sei com o quê. Quero seguir em frente, mas há peso morto a ser carregado por entre o meu corpo. Lágrimas secas que não se dissolvem na pele. Apenas a secam. Irremediavelmente.
Há estilhaços de ti que ainda não cuspi. Tu, aos pedaços, em bocaditos que se enredam nas minhas vísceras e se deixam ficar. Como se afinal pudesses fazer parte de mim. Ainda que...


Dizem que me matas por dentro. Ainda estarás viva?

Só sou sangue. O que ficou depois de ti.

terça-feira, julho 08, 2008

Amo-te

Mesmo que deixasse de escrever "amo-te" em cada pequeno lugar disponível, não te esqueceria. Assim não te esquecem as janelas dos autocarros em manhãs frias, ou os capôs dos carros sujos com que me deparo, a areia deserta em que faço das canas o meu lápis e escrevo sempre "Amo-te". Amo-te de um amor antigo, indizível e por isso mesmo também intransmissível. Não é possível dá-lo a ti.
Serei egoísta talvez. Mas partilho esse amor com tanta gente. Centenas de desconhecidos que tão bem sabem que tu e eu existimos. Na frase que nos separa. Na distância que nos iguala. Apenas duas secretárias atrás de mim. Atirando-me papéis como se ainda partilhássemos aquele tempo bom do leite morno com café e do pão com manteiga e uma fatia de fiambre. Quando afirmaste categoricamente que aquela praia era tua. Fiquei a menina do balde azul. Do coração roubado. Amo-te, desenho de azulejo ou pedaço de calçada portuguesa. Embrulhada no xaile preto do fado, onde a saudade sabe de cor o teu nome. "Amo-te" ainda nos troncos das árvores dos jardins por onde passo. "Amo-te", nas portas das casas de banho públicas. Amo-te, mesmo que não saibas ou não o queiras e um dia eu deixe de o escrever
.

sábado, junho 21, 2008

É quase certo,sabias?

É quase certo fazeres parte de mim. Em nós sobrevivem sobrevivem camadas de tempo que se acumulam na pele e no sangue. A dor pode durar para sempre. E ainda assim ser real. Quase palpável. E ser uma certeza. Ás vezes a única certeza. Podemos usá-la. Masturbarmo-nos deliciados com ela.

É quase certo fazeres parte da minha dor.

É quase certo fazeres parte de mim.

Sabias?

terça-feira, junho 10, 2008

Arco-íris

Quieta. Foto a preto e branco porque são estas as cores do meu silêncio. Não há tesouros escondidos no fim do arco-íris. Hoje já nem sequer descortino arco-íris no meu céu. Por isso continuo, quase sem me mexer, para ver se o silêncio não me toca. Não me desgasta. E não me devolve a verdade.
É quase que como se a outra parte de mim fosse gostar de ti. Como se existisse em mim uma outra parte que continua, miraculosamente, a amar-te. Ainda e, apesar de tudo, sem saber o porquê. Quietude silenciada. Os teus lábios nos meus. O tesouro no fim dos meus arco-íris.

Já não há arco-íris no meu céu. Só chuva. Sem sol.

segunda-feira, abril 14, 2008

Lasanha

Poderia ser o meu prato favorito. A receita mais saborosa das minhas habilidades de dona de casa. É a recordação do sabor, do odor intenso do tomate temperado com oregãos e vinho branco a cozinhar lentamente, da textura da carne picada sabiamente picada e refogada na cebola e no alho. É a lembrança do meu comer na tua boca. É a lembrança da tua boca. De tu em mim. As natas aveludadas manchando os lábios. E o queijo pequeno aos bocados derretendo-se na língua. fundindo-se em nós. Na mágica alegria dos imprevistos.
Por graça quase parecíamos uma colagem de algum artista perversamente intelectual. Quem nos imaginaria colados? Quem nos poria na mesma tela? Ou até na mesma vida?
Só quem não resiste às tentações. Do espírito da carne. Tudo a nu. Por nós.

Lasanha ainda. Apesar de tudo.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

E se te matasse?

E se te matasse? Pela calada da noite, na paz aparente e podre desta casa. Deste bairro, desta cidade. Alguém me vai defender. Dizer que estou louca ou que me atacaste primeiro. Ou melhor ainda que me humilhaste tantas e tantas vezes que matar-te foi a conclusão lógica de tudo isto.
Hoje era um bom dia para morreres porque amanhã a empregada vem cá e sempre limpava melhor os vestígios do crime. Na televisão, os polícias bonitos ainda assim conseguem descobrir sempre. Mas isto aqui é só Portugal, é só Lisboa, num bairro condenado ao desprezo de todos. Aqui não entram polícias bonitos. Portanto não há que ter medo de te matar.
Pelo menos acabariam as minhas noites de insónia como esta. Em que tu ocupas a cama inteira e ressonas como um porco. Às vezes tenho nojo de ti. Pareces mesmo um porco rosado e anafado daqueles que se vendiam nas feiras da minha infância. Lá na terra, era assim os porcos bonitos e lustrosos vendíamos, os outros matávamos simplesmente. E era uma festa.
Matar-te será também como uma festa igual às desses dias. Será a minha liberdade. Porque finalmente poderei ser eu. E voltar à terra da minha infância, rever os abraços ternos da minha família, a qual me impediste de contactar desde que casámos.
E foi no dia do casamento que me apercebi que te queria matar, por isso sim, foi um crime premeditado. no qual eu já cumpri a minha pena antecipadamente. Agora posso finalmente matar-te. E sair em liberdade da prisão.