Claro que sim, que te procuro.
Tu, um qualquer que me desvendaste-me assim que me viste. Corrigiste o sorriso, acertaste com a lágrima, esventraste-me as memórias e derreteste fantasmas em menos de nada.
Tu, um qualquer, que me disseste que não sabia andar. Que não sabia caminhar e que por isso teimava em cair em todos os buracos que encontrava. Que insistia no desafio do abismo, mesmo sabendo o resultado final.
Tu, um qualquer, que me obrigaste a abraçar-me ao espelho. A querer gostar de mim. A querer amar-me. Como tu.
Tu, um qualquer, que soube sempre quem eu era, mesmo quando eu não fazia minima ideia onde me poderia encontrar.
Claro que te procuro. Ainda que em sonhos.
sexta-feira, novembro 27, 2009
sexta-feira, novembro 20, 2009
O meu reino por um abraço
Trocava tudo hoje por um abraço. Por uns braços quentes que me acolhessem e sobretudo me segurassem. Ando com demasiado medo de cair.
Quando cresces, percebes isto. Que tens de te abraçar. Que ninguém tem a obrigação de te agarrar ou de te segurar quando insistes em bambolear-te na corda bamba.
Quando cresces, continuas a ter medo do escuro. O desconhecido continua a assustar-te e tu continuas cheia de medo de dar o passo em frente. Quando cresces, verificas que há muitas pessoas no mundo e ainda assim te sentes sozinho.
Quando cresces, por vezes, trocas tudo pelo calor do outro corpo. Iludes-te e pensas que do nada alguma coisa pode nascer. Que alimentar essa esperança é amor. Que viver assim te vai fazer feliz. Ou menos sozinha. Digo-te eu que não.
Quando cresceres vais ter que te abraçar muitas vezes. E aqueceres o teu corpo única e exclusivamente com a água a escaldar do duche. Pele vermelha. Ferida em fogo. Lento e para sempre.
Quando cresces, percebes isto. Que tens de te abraçar. Que ninguém tem a obrigação de te agarrar ou de te segurar quando insistes em bambolear-te na corda bamba.
Quando cresces, continuas a ter medo do escuro. O desconhecido continua a assustar-te e tu continuas cheia de medo de dar o passo em frente. Quando cresces, verificas que há muitas pessoas no mundo e ainda assim te sentes sozinho.
Quando cresces, por vezes, trocas tudo pelo calor do outro corpo. Iludes-te e pensas que do nada alguma coisa pode nascer. Que alimentar essa esperança é amor. Que viver assim te vai fazer feliz. Ou menos sozinha. Digo-te eu que não.
Quando cresceres vais ter que te abraçar muitas vezes. E aqueceres o teu corpo única e exclusivamente com a água a escaldar do duche. Pele vermelha. Ferida em fogo. Lento e para sempre.
Hoje eu trocava tudo por um abraço. Uns braços que me segurassem.
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Rute Coelho
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sexta-feira, novembro 20, 2009
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segunda-feira, novembro 16, 2009
Acaba tudo assim
Numa discussão rídicula sobre quem está encarregue de lavar os pratos. A nona esta semana e hoje ainda é quase terça, explica-me a minha Cliente, sentada à minha frente, de lágrima no olho e lenço de papel a postos. Alguém gritou primeiro, o outro a seguir. Alguém levanta a mão. Depois o hospital, as lágrimas e ela aqui à minha frente. A pedir-me explicações e soluções para o fim do amor.
Depois dos pratos, a sogra que não sai lá de casa, o cão que nunca se leva a passear a tempo e horas, um elenco de queixas, de discussões e de lágrimas.
Oiço-a e pergunto-me, acaba tudo assim? Neste mar de coisas comezinhas onde naufragavam à deriva a amizade, a cumplicidade e todas aquelas coisas que aprendemos fazer parte do contrato maior que é ou deveria ser o amor.
A Cliente fala. Diz-me que não lhe apetece voltar para casa quando sai do trabalho e pergunta-me o que pode fazer.
Hoje, quando sair do escritório só há silêncio quando chegar a casa. Parti os pratos há uns tempos atrás, era esta a solução que me apeteceu dar à Cliente. Em vez disso lá lhe dei uma mezinha legal pescrita pelo Código Civil para ela orientar a sua vida.
Porque sim, D. Celeste, às vezes acaba tudo assim.
Depois dos pratos, a sogra que não sai lá de casa, o cão que nunca se leva a passear a tempo e horas, um elenco de queixas, de discussões e de lágrimas.
Oiço-a e pergunto-me, acaba tudo assim? Neste mar de coisas comezinhas onde naufragavam à deriva a amizade, a cumplicidade e todas aquelas coisas que aprendemos fazer parte do contrato maior que é ou deveria ser o amor.
A Cliente fala. Diz-me que não lhe apetece voltar para casa quando sai do trabalho e pergunta-me o que pode fazer.
Hoje, quando sair do escritório só há silêncio quando chegar a casa. Parti os pratos há uns tempos atrás, era esta a solução que me apeteceu dar à Cliente. Em vez disso lá lhe dei uma mezinha legal pescrita pelo Código Civil para ela orientar a sua vida.
Porque sim, D. Celeste, às vezes acaba tudo assim.
domingo, outubro 18, 2009
não me agarres
não me agarres: não tenho salvação. não me sei olhar ao espelho. não gosto de me tocar. nem de me abraçar. não me sei amar a esse ponto. não sei como é amar assim. como se fosse fácil gostar de mim.
não me agarres: presa, estou eu há muito tempo aqui. e sabes, e isso já é tempo demais. há tanta gente que precisava do meu tempo para viver, e eu desperdiço-o.
não me agarres: lá fora há o sol e o mar à tua espera. aqui não há nada para ninguém. um copo meio vazio que alguem se esqueceu de deitar fora.
não me agarres: presa, estou eu há muito tempo aqui. e sabes, e isso já é tempo demais. há tanta gente que precisava do meu tempo para viver, e eu desperdiço-o.
não me agarres: lá fora há o sol e o mar à tua espera. aqui não há nada para ninguém. um copo meio vazio que alguem se esqueceu de deitar fora.
não me agarres: não me sei amar assim.
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quarta-feira, outubro 14, 2009
Despedida
Despeço-me do que não sei viver.
Em alguns momentos parte-se sempre.
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quarta-feira, outubro 14, 2009
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quarta-feira, outubro 07, 2009
Para o futuro
E agora, projectos para o futuro?
Esta foi o início de uma conversa que acabei antes de a mesma tomar outros rumos. Finji um ar feliz por mais esta batalha profissional ganha e agradeci os parabéns.
Consola-os ver-me feliz: os familiares e amigos aplaudem de pé, quem me paga os vicios rejubila de gozo.
Cá dentro: igual ao antes, igual ao depois. Dormente.
Projectos para o futuro: nenhuns. O futuro já passou aqui. Bateu à porta sem ser convidado e eu recusei a entrada.
Não quero nada. Não espero nada. Não luto por nada. Não vibro com nada.
"À parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo".
Ou não.
Esta foi o início de uma conversa que acabei antes de a mesma tomar outros rumos. Finji um ar feliz por mais esta batalha profissional ganha e agradeci os parabéns.
Consola-os ver-me feliz: os familiares e amigos aplaudem de pé, quem me paga os vicios rejubila de gozo.
Cá dentro: igual ao antes, igual ao depois. Dormente.
Projectos para o futuro: nenhuns. O futuro já passou aqui. Bateu à porta sem ser convidado e eu recusei a entrada.
Não quero nada. Não espero nada. Não luto por nada. Não vibro com nada.
"À parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo".
Ou não.
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sábado, outubro 03, 2009
Lembra-te
Tu ficas, eu parto; através do tempo suspenso da espera.
Lembra-te: é no beijo de despedida que começo regressar.
Lembra-te: é no beijo de despedida que começo regressar.
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domingo, setembro 27, 2009
De luto...
Luto para que sejas tu. Na maior parte dos dias, fecho os olhos com muita força e tento esquecer esta luta. Porque é uma luta inglória. Não podes ser tu.
Sou tua.
Mas a alguém que me ofereça um sorriso, deixo escapar um gosto de ti telenovelesco. Se me abraçarem forte, digo sim a um eventual compromisso de vestido e grinalda.
E sim, vendo-me por pouco. Afinal tens tudo o resto.
E não podes ser tu. Luto diariamente para que não o sejas. Com uma vontade férrea. Esmago desejos e beijos. Engulo soluços e palavras. Encolho-me neste lado do silêncio.
Quero que sejas feliz. Quero ser feliz.
(ainda assim luto para que que sejas tu)
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sexta-feira, setembro 18, 2009
O que sei da vida
O que sei da vida: Que se acaba. Que se derrete no milésimo de segundo em que adormeceste e passaste o sinal vermelho. Eu ia morrendo e tu navegas pela morte à procura de um caminho na cama do hospital.
O que sei da vida: Que se acaba lentamente numa cadeira de rodas com um cancro a corroer-te o cérebro e coarctar-te para sempre os movimentos, a fala, a visão e a audição.
O que sei da vida: Que se acabou hoje neste cemitério.
Ainda é Verão e chove. A vida acabou-se por detrás dos óculos escuros que sustém as lágrimas que não podemos chorar à frente uns dos outros. E admitir que a vida se acaba assim depois de um transplante que prometia os anos em que poderias continuar por cá. A sorrir. Tinhas um sorriso lindíssimo de manhã quando chegavas ao trabalho e dizias que era bom continuar por cá.
Neste Verão parece que o que sei da vida se resume a isto: ela acaba-se.
(E talvez tenhas razão, é bom continuar cá... mas não nestes dias em que tudo se acaba.)
O que sei da vida: Que se acaba lentamente numa cadeira de rodas com um cancro a corroer-te o cérebro e coarctar-te para sempre os movimentos, a fala, a visão e a audição.
O que sei da vida: Que se acabou hoje neste cemitério.
Ainda é Verão e chove. A vida acabou-se por detrás dos óculos escuros que sustém as lágrimas que não podemos chorar à frente uns dos outros. E admitir que a vida se acaba assim depois de um transplante que prometia os anos em que poderias continuar por cá. A sorrir. Tinhas um sorriso lindíssimo de manhã quando chegavas ao trabalho e dizias que era bom continuar por cá.
Neste Verão parece que o que sei da vida se resume a isto: ela acaba-se.
(E talvez tenhas razão, é bom continuar cá... mas não nestes dias em que tudo se acaba.)
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quinta-feira, setembro 03, 2009
Vivemos a perder.
Vivemos a perder. Todos os dias abandonamos alguém à beira da estrada. Todos os dias nos despedimos de alguém que no dia seguinte não vamos ver. Dizemos adeus a um rosto, sem lhe conhecer o sorriso, dispensamos corpos sem lhes enxergar os encantos. Amordaçamos as vozes sem sequer lhes proporcionar o tempo de uma conversa banal. Escondemo-nos na gola do sobretudo para não ver a lágrima do outro cair. No silêncio de nós. Vamo-nos embora todos os dias, sem sequer reparar no esmero dos novos sapatos de quem nos impediu de morrer.
- Fica bem?- pergunta o homem de bata branca que me salvou as memórias.
- Ficarei. Fico sempre bem antes de morrer.
Ri-se. Afaga-me o cabelo despeitadamente. Podia ser meu pai. Meu professor. Meu amante.
Agora, encostada ao vidro do táxi, amachuco com força as prescrições de nomes compridos e comprimidos em linhas paralelas. Que nunca se encontram: memória do muito que se lançou ao desbarato.
Ficam as perdas inevitáveis. O tempo quase irrecuperável. Como daquela vez, em que roguei que te fosses embora, quando só queria que ficasses. Desviámo-nos do caminho um do outro. Apartámos palavras e afastámos emoções. Só para ficar longe. Para perder.
E já perdemos tanto...
- Fica bem?- pergunta o homem de bata branca que me salvou as memórias.
- Ficarei. Fico sempre bem antes de morrer.
Ri-se. Afaga-me o cabelo despeitadamente. Podia ser meu pai. Meu professor. Meu amante.
Agora, encostada ao vidro do táxi, amachuco com força as prescrições de nomes compridos e comprimidos em linhas paralelas. Que nunca se encontram: memória do muito que se lançou ao desbarato.
Ficam as perdas inevitáveis. O tempo quase irrecuperável. Como daquela vez, em que roguei que te fosses embora, quando só queria que ficasses. Desviámo-nos do caminho um do outro. Apartámos palavras e afastámos emoções. Só para ficar longe. Para perder.
E já perdemos tanto...
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