quinta-feira, janeiro 14, 2010

Só corpo.

Sem alma, sem coração. Só corpo. O resto emigrou de mim.

Sou cada vez mais só corpo.


Não me peçam mais, não há mais.

Janeiro de 2010

terça-feira, dezembro 29, 2009

Deste lado

Através desta janela há chuva e um rio prateado. Há um passado a ser encerrado.  Amanhã nasço uma vez mais. Ainda os conto. E apago as velas. E sorrio com as conquistas. E espanto-me com as pequenas rugas que começam a despontar no meu rosto de menina. Depois acaba o ano. É o futuro pronto para ser estreado.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Por dentro

Por dentro. Abre-me. Sou só ferida imensa. Carne viva a sangrar. Sem tempo ou pele suficiente para cicatrizar. Abre-me. Com o metal frio do bisturi impecavelmente esterilizado. Sou apenas mais uma. Mais um corpo.

É quase bar aberto. Serve-te à vontade dos meus sonhos e vãs esperanças. Ridiculariza-os, espezinha-os. Fá-lo é de uma vez por todas.

Elimina-os de mim. Para que nunca mais ceda à tentação de acreditar.


As marcas acumulam-se no corpo. No entanto, olho-me ao espelho e incrivelmente ainda acredito. Ainda quero acreditar. Quando sei que não posso, não devo e não quero. Acreditar: no ser humano.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Procurar

Claro que sim, que te procuro.

Tu, um qualquer que me desvendaste-me assim que me viste. Corrigiste o sorriso, acertaste com a lágrima, esventraste-me as memórias e derreteste fantasmas em menos de nada.

Tu, um qualquer, que me disseste que não sabia andar. Que não sabia caminhar e que por isso teimava em cair em todos os buracos que encontrava. Que insistia no desafio do abismo, mesmo sabendo o resultado final.

Tu, um qualquer, que me obrigaste a abraçar-me ao espelho. A querer gostar de mim. A querer amar-me. Como tu.

Tu, um qualquer, que soube sempre quem eu era, mesmo quando eu não fazia minima ideia onde me poderia encontrar.

Claro que te procuro. Ainda que em sonhos.

sexta-feira, novembro 20, 2009

O meu reino por um abraço

Trocava tudo hoje por um abraço. Por uns braços quentes que me acolhessem e sobretudo me segurassem. Ando com demasiado medo de cair.
Quando cresces, percebes isto. Que tens de te abraçar. Que ninguém tem a obrigação de te agarrar ou de te segurar quando insistes em bambolear-te na corda bamba.
Quando cresces, continuas a ter medo do escuro. O desconhecido continua a assustar-te e tu continuas cheia de medo de dar o passo em frente. Quando cresces, verificas que há muitas pessoas no mundo e ainda assim te sentes sozinho.
Quando cresces, por vezes, trocas tudo pelo calor do outro corpo. Iludes-te e pensas que do nada alguma coisa pode nascer. Que alimentar essa esperança é amor. Que viver assim te vai fazer feliz. Ou menos sozinha. Digo-te eu que não.
Quando cresceres vais ter que te abraçar muitas vezes. E aqueceres o teu corpo única e exclusivamente com a água a escaldar do duche. Pele vermelha. Ferida em fogo. Lento e para sempre.

Hoje eu trocava tudo por um abraço. Uns braços que me segurassem.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Acaba tudo assim

Numa discussão rídicula sobre quem está encarregue de lavar os pratos. A nona esta semana e hoje ainda é quase terça, explica-me a minha Cliente, sentada à minha frente, de lágrima no olho e lenço de papel a postos. Alguém gritou primeiro, o outro a seguir. Alguém levanta a mão. Depois o hospital, as lágrimas e ela aqui à minha frente. A pedir-me explicações e soluções para o fim do amor.

Depois dos pratos, a sogra que não sai lá de casa, o cão que nunca se leva a passear a tempo e horas, um elenco de queixas, de discussões e de lágrimas.

Oiço-a e pergunto-me, acaba tudo assim? Neste mar de coisas comezinhas onde naufragavam à deriva a amizade, a cumplicidade e todas aquelas coisas que aprendemos fazer parte do contrato maior que é ou deveria ser o amor.

A Cliente fala. Diz-me que não lhe apetece voltar para casa quando sai do trabalho e pergunta-me o que pode fazer.

Hoje, quando sair do escritório só há silêncio quando chegar a casa. Parti os pratos há uns tempos atrás, era esta a solução que me apeteceu dar à Cliente. Em vez disso lá lhe dei uma mezinha legal pescrita pelo Código Civil para ela orientar a sua vida.

Porque sim, D. Celeste, às vezes acaba tudo assim.

domingo, outubro 18, 2009

não me agarres

não me agarres: não tenho salvação. não me sei olhar ao espelho. não gosto de me tocar. nem de me abraçar. não me sei amar a esse ponto. não sei como é amar assim. como se fosse fácil gostar de mim.
não me agarres: presa, estou eu há muito tempo aqui. e sabes, e isso já é tempo demais. há tanta gente que precisava do meu tempo para viver, e eu desperdiço-o.
não me agarres: lá fora há o sol e o mar à tua espera. aqui não há nada para ninguém. um copo meio vazio que alguem se esqueceu de deitar fora.

não me agarres: não me sei amar assim.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Despedida

Despeço-me do que não sei viver.


 Em alguns momentos parte-se sempre.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Para o futuro

E agora, projectos para o futuro?

Esta foi o início de uma conversa que acabei antes de a mesma tomar outros rumos. Finji um ar feliz por mais esta batalha profissional ganha e agradeci os parabéns.
Consola-os ver-me feliz: os familiares e amigos aplaudem de pé, quem me paga os vicios rejubila de gozo.
Cá dentro: igual ao antes, igual ao depois. Dormente.
Projectos para o futuro: nenhuns. O futuro já passou aqui. Bateu à porta sem ser convidado e eu recusei a entrada.
Não quero nada. Não espero nada. Não luto por nada. Não vibro com nada.
"À parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo".
Ou não.

sábado, outubro 03, 2009

Lembra-te

Tu ficas, eu parto; através do tempo suspenso da espera.
Lembra-te: é no beijo de despedida que começo regressar.