Estico ainda um braço seco e magro para um pássaro pousar. Outrora os meus ramos eram enfeitados de folhas, frutos e flores. Eram fortes. Hoje já nem sequer consigo carregar todos os meus ramos, prefiro deixar-me oscilar com a passagem do vento, o meu antigo companheiro.
No meu tronco guardo ainda as memórias do meu passado feito de marcas de diversos pássaros que já alojei e pedaços dos seus ninhos. Na minha barriga oca conservo os restos de nozes que os meus amigos esquilos deixaram.
Com saudade, recordo os tempos, em que as crianças construíram em mim, casas de madeira, e lá recriavam mundos entre tachinhos e espiões. Depois essas mesmas crianças, apaixonavam-se debaixo dos seus ramos e amavam-se nas casas de madeira.
Eu também já me apaixonei... O amor aconteceu quando uma criança plantou perto de mim um pinheiro. Foi há muitos anos, num Dia Mundial da Árvore. Deslumbrei-me por ele. Observei o crescimento, ensinei-o a defender-se dos homens maus e por tempos infinitos, contemplei-o em silêncio.
O seu primeiro Inverno foi horrível. Vi-o lutar contra o vento, numa combate desigual. A sua espessura era semelhante ao cajado de um pastor. O vento foi mau nesse Inverno. Mas o pinheiro resistiu e desafiou a Natureza. Quase venceu.
A Primavera apareceu muito perto do que deveriam ser os meses de Verão. Nessa altura de noites curtas, eu e ele habituámo-nos a contemplar em silêncio. No entanto havia dias em que ele se tapava com os seus ramos finos para que eu não o visse chorar. E só eu o sabia. Com os meus ramos, afastava os dele e apontava-lhe o Sol. Falava-lhe baixinho, com palavras pequenas que fui buscar às minhas raízes e consolava-o assim.
No dia mais comprido do ano, arrisquei quase tudo. Quase ganhei. As nossas folhas tocaram-se apaixonadamente e misturámos os nossos ramos. Mais tarde os nossos troncos dançaram ao som de uma música branca. A do Futuro. Trocámos promessas, que soubemos desde sempre serem impossíveis. Seria o nosso amor mais forte do que os apelos das nossas raízes?
Elas pediam solidão. Nós prometíamos amor. Tudo ou quase tudo tem um fim. Mesmo que seja um fim repleto de coisas por acontecerem, como era o nosso.
Inverno, após Inverno, o meu pinheiro suplica ao vento que o derrube. Mas o vento responde-lhe sempre que as árvores morrem de pé.
Continuo ainda a amá-lo. O seu tronco curvado e fino faz lembrar uma cana de pesca. Não tem folhas, flores ou frutos. E eu lentamente vou-me deixando morrer também. Sem que ninguém perceba. Morro de pé. Sozinha.
Concedo-me a alegria (quase a última) de tocar no pinheiro. Ele sente. Submersas, as nossas raízes abraçam-se para sempre no futuro. Já não dançamos. Mas é o som dessa música branca que nos embala no colo da Morte. Já não temos medo. O futuro é amanhã. É a morte que nos chama. Já é quase amanhã...
domingo, janeiro 09, 2011
sábado, janeiro 08, 2011
Mimos e motivos.
Fiz-te o café e as torradas com manteiga dos dois lados e mel a cobrir, mas só na face superior. Calcei os ténis, há tempo que não conheço outro tipo de sapatos, vesti a gabardine e peguei nas trelas dos cães. Agora é proibido deixá-los correr livremente. A liberdade até se proibe aos cães.
A tempo de fechar a porta, ouço o teu assobio matinal e adivinho os teus passos que se encaminham para a banheira que já deixei cheia de água quente com os teus sais marinhos.
Sentes os meus passos apressados na escada de madeira, abres a porta e seguras-me a mão no último degrau. beijas-me a mão e dizes bom-dia. Ajeito-te a gravata e afasto uma poeira imaginária do teu casaco.
Não são mimos. São o motivo dos meus dias.
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sábado, janeiro 08, 2011
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quarta-feira, janeiro 05, 2011
Como tu:
Senti de novo aquela violência a conquistar o espaço do meu corpo: as pernas a pontapearam o vazio, o ardor nos braços e depois de tudo a cegueira no olhar. no teu e no meu. Não sei se nos vemos quando disparamos um contra o outro . Sei que dói demasiado o embate. Sei que tenho imenso medo da minha força. De perder o controle do meu braço direito e de este não conseguir parar o movimento da jarra contra a tua face. Nunca como hoje esteve tão perto. Nunca como hoje estive tão longe de mim.
Passei anos a tentar esquecer que tenho essa violência bruta incrustada, que ela faz parte de uma herança genética que tento rejeitar diariamente. Passei anos a tentar acreditar em tudo o que outros escrevem em cartões de aniversário ou sussuram ao ouvido em noites quentes. Hoje, bastaste tu, os golpes desferidos e as palavras de crueldade de sempre, e num sopro de vento desmoronei-me. Como sempre e desde sempre.
Fica a ferida no lábio e no nariz. Fica o sangue. Ficam as tuas palavras que ecoam na minha cabeça como um disco riscado. Tenho medo de um dia vir a ser como tu.
Passei anos a tentar esquecer que tenho essa violência bruta incrustada, que ela faz parte de uma herança genética que tento rejeitar diariamente. Passei anos a tentar acreditar em tudo o que outros escrevem em cartões de aniversário ou sussuram ao ouvido em noites quentes. Hoje, bastaste tu, os golpes desferidos e as palavras de crueldade de sempre, e num sopro de vento desmoronei-me. Como sempre e desde sempre.
Fica a ferida no lábio e no nariz. Fica o sangue. Ficam as tuas palavras que ecoam na minha cabeça como um disco riscado. Tenho medo de um dia vir a ser como tu.
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quarta-feira, janeiro 05, 2011
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quinta-feira, dezembro 30, 2010
Biografia
Hoje mais velha.
Antes de ser gente, queria ser pedra. Pelo som da palavra. Depois poeta. Porque também gostava do som da palavra. Poeta, era o nome de todos os meus peluches. Antes de saber escrever, quis ser escritora, porque contava estórias a mim mesma para adormecer. O jornalismo, a profissão óbvia, foi apenas uma breve passagem. Fiquei-me pelo Direito. De usar as palavras. Pelos outros.
Hoje mais velha.
Ainda quero ser pedra. Pela dureza de que são feitas. Porque não se partem. Como eu que me lasco um pouco mais em cada queda. Já não quero ser poeta. Os poetas conhecem bem demais a textura das lágrimas.
Hoje mais velha.
Talvez ainda escritora. O sonho dos sonhos. Porque ainda me conto estórias para adormecer nos dias maus.
O Direito das palavras corre-me por entre os dedos e transparece-me na voz.
Antes de ser gente, queria ser pedra. Pelo som da palavra. Depois poeta. Porque também gostava do som da palavra. Poeta, era o nome de todos os meus peluches. Antes de saber escrever, quis ser escritora, porque contava estórias a mim mesma para adormecer. O jornalismo, a profissão óbvia, foi apenas uma breve passagem. Fiquei-me pelo Direito. De usar as palavras. Pelos outros.
Hoje mais velha.
Ainda quero ser pedra. Pela dureza de que são feitas. Porque não se partem. Como eu que me lasco um pouco mais em cada queda. Já não quero ser poeta. Os poetas conhecem bem demais a textura das lágrimas.
Hoje mais velha.
Talvez ainda escritora. O sonho dos sonhos. Porque ainda me conto estórias para adormecer nos dias maus.
O Direito das palavras corre-me por entre os dedos e transparece-me na voz.
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terça-feira, dezembro 14, 2010
O teu nome
Nunca pude gritar o teu nome aos quatro ventos. Nem confessar a ninguém isto que me rasga o corpo e corrói por dentro. Não posso dizer porque me gotejam os olhos, ou porque as palavras são gritos que me obrigo a calar.
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sábado, dezembro 11, 2010
Despedidas
Não sei se quero uma despedida desta vez. Já houve tantas entre nós. E sempre tão definitvas que foi assustador beijar-te pela última vez ou amar-te pela última vez.
Não quero que me morras porque isso seria lembrar-te para sempre. Quero que te desvaneças, que as poucas coisas que ficaram de ti se esmoreçam na correnteza dos dias, para que possa despedir-me delas sem medo do amanhã.
Não quero por isso dizer-te adeus, ficamos no "amanhã ligo", no qual tantas e por tantas vezes quis acreditar. Assim, de nós ficouo cansaço da sobrevivência ao silêncio.
Quero por isso dormir. E quero que saias dos meus sonhos.
Não quero que me morras porque isso seria lembrar-te para sempre. Quero que te desvaneças, que as poucas coisas que ficaram de ti se esmoreçam na correnteza dos dias, para que possa despedir-me delas sem medo do amanhã.
Não quero por isso dizer-te adeus, ficamos no "amanhã ligo", no qual tantas e por tantas vezes quis acreditar. Assim, de nós ficouo cansaço da sobrevivência ao silêncio.
Quero por isso dormir. E quero que saias dos meus sonhos.
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adeus
quarta-feira, novembro 17, 2010
Trocas
Eu um dia serei tão velha para ti. As borbulhas do meu rosto serão rugas vincadas. Os caracóis castanhos de fogo, serão apenas nós num cabelo branco. O tempo também vai passar por mim. E deixar marcas.
Como será se eu crescer?
Tenho medo que um dia troques de vida. Que um dia queiras começar tudo de novo com alguém mais novo. como eu sou hoje. nova para ti. Nova na juventude, no brilho que enche os olhos de brilho e acalenta o sorriso nos lábios que se prendem com os teus.
Como será se eu crescer?
Trocar as listas de livros pelas listas de supermercados, a ópera pela Hanna Montana, as nossas escapadinhas pelo mundo, por um dia num spa.
Como será se eu crescer?.
Trocas-me?
Como será se eu crescer?
Tenho medo que um dia troques de vida. Que um dia queiras começar tudo de novo com alguém mais novo. como eu sou hoje. nova para ti. Nova na juventude, no brilho que enche os olhos de brilho e acalenta o sorriso nos lábios que se prendem com os teus.
Como será se eu crescer?
Trocar as listas de livros pelas listas de supermercados, a ópera pela Hanna Montana, as nossas escapadinhas pelo mundo, por um dia num spa.
Como será se eu crescer?.
Trocas-me?
sábado, novembro 13, 2010
Em ti.
Não sei o que a dor fez de ti. Não sei se precisas do meu abraço de silêncio, ou das palavras pequenas de conforto. Sei apenas o de sempre: que te penso diaria e injustamente. Que és pensamento a cada instante.
Não sei que marcas deixam as lágrimas no teu rosto. Não sei sequer se ainda andas por cá. Sei que sobrevivo ao silêncio do que ficou. E ainda assim espero por ti.
Relatório da mensagem: Não entregue.
Não sei que marcas deixam as lágrimas no teu rosto. Não sei sequer se ainda andas por cá. Sei que sobrevivo ao silêncio do que ficou. E ainda assim espero por ti.
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domingo, outubro 31, 2010
Não gostes de mim
Pedi-te sempre, não gostes de mim.
Gosta do corpo, gosta do meu riso, da minha falta de juízo, gosta do meu sorriso de menina, da voz ensonada quando acordo, do cigarro que evito, do café da manhã obrigatório, do beicinho do amuo, das unhas encarnadas, do cabelo encaracolado que passo a ferro diariamente, dos relógios que prendem ao tempo.
Gosta do que vês nas fotos e te faz lembrar de mim. Gosta do que a tua memória imagina de mim e inventa de nós como memória persistente. Gosta das cerejas sumarentas que são como palavras entre nós. Gosta dos sonhos que se descobrem nas maçãs do meu rosto. Gostas das estrelas que vislumbras no meu olhar.
Gosta do beijo de sabor intenso a desejo. Gosta da minha imunidade contra paixões e quaisquer outras atracções. Gosta de saber que me vou embora a meio da noite.
Não gostes de mim.
Não me obrigues a dizer que gosto de ti.
Gosta do corpo, gosta do meu riso, da minha falta de juízo, gosta do meu sorriso de menina, da voz ensonada quando acordo, do cigarro que evito, do café da manhã obrigatório, do beicinho do amuo, das unhas encarnadas, do cabelo encaracolado que passo a ferro diariamente, dos relógios que prendem ao tempo.
Gosta do que vês nas fotos e te faz lembrar de mim. Gosta do que a tua memória imagina de mim e inventa de nós como memória persistente. Gosta das cerejas sumarentas que são como palavras entre nós. Gosta dos sonhos que se descobrem nas maçãs do meu rosto. Gostas das estrelas que vislumbras no meu olhar.
Gosta do beijo de sabor intenso a desejo. Gosta da minha imunidade contra paixões e quaisquer outras atracções. Gosta de saber que me vou embora a meio da noite.
Não gostes de mim.
Não me obrigues a dizer que gosto de ti.
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sábado, outubro 30, 2010
Agarro o teu braço. Procuro a carne. O que está por debaixo da carne. Agarro apenas a carne. Queria conseguir estancar a hemorragia. como se faz isso?
Aperto o braço. Estanco o sangue à custa de seres meu. Por este bocadinho esbulhado a um dia de uma chuva imensa, do lado de fora desta carrinha abandonada que ocupámos. Só hoje. Só agora. Para eu te poder apertar o braço.
Não há lágrimas. Não há adeus. Promete-se sempre que se volta um dia. Ao local do crime.
Aperto o braço. Estanco o sangue à custa de seres meu. Por este bocadinho esbulhado a um dia de uma chuva imensa, do lado de fora desta carrinha abandonada que ocupámos. Só hoje. Só agora. Para eu te poder apertar o braço.
Não há lágrimas. Não há adeus. Promete-se sempre que se volta um dia. Ao local do crime.
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