Não choveu ontem.Voltou a época dos incêndios. E dos terramotos que me acontecem na pele. Um tsunami pode invadir-me os olhos e provocar estragos. Depois o calor regressa, secando tudo. Arde apenas.
P.S- Chamem o 112, as queimaduras adivinham-se profundas. Um beijo para quem fica.
quinta-feira, junho 30, 2011
terça-feira, maio 24, 2011
Só faltava chover.
Tínhamos o abraço apertado, a lágrima a querer aquecer o olho, um desejo surreal a nascer, um beijo tímido a acontecer. Só faltava chover.
Publicada por
Rute Coelho
à(s)
terça-feira, maio 24, 2011
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
sábado, abril 09, 2011
Faz-me falta este livro
Acho que te preciso de escrever um livro.
Para?
Um livro com as pequenas histórias que foram ficando de fora dos álbuns de fotografias, dos diários e dos livros de receitas e apontamentos da avó Teresa.
Para?
Um livro de palavras estranhas, ousadas e difíceis. Terias decerto de consultar dicionários antigos.
Para?
Um livro- mapa-ampulheta.
Para?
Para que não te percas nas paragens do tempo.
Para?
Um livro com as pequenas histórias que foram ficando de fora dos álbuns de fotografias, dos diários e dos livros de receitas e apontamentos da avó Teresa.
Para?
Um livro de palavras estranhas, ousadas e difíceis. Terias decerto de consultar dicionários antigos.
Para?
Um livro- mapa-ampulheta.
Para?
Para que não te percas nas paragens do tempo.
Publicada por
Rute Coelho
à(s)
sábado, abril 09, 2011
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
terça-feira, março 08, 2011
Dez minutos
Um pouco de silêncio. Um espelho. Uma parede para me encostar e poder escorregar. Até ficar sentada no chão. De joelhos flectidos. Sim, sei que a saia vai ficar desalinhada. Dá-me dez minutos assim. Para mim. Em que eu possa ser, desesperadamente, eu. Ou uma outra qualquer. Às tantas uma pessoa cansa-se de ser sempre a mesma.
Nove minutos.
E quero mudar. De corpo, de coração e até talvez de alma.
Descalço os sapatos. Deixo que as meias finas de vidro pisem a tijoleira fria e barata. Do outro lado desta porta feita de chapa de alumínio, ouço vozes e pancadas na porta. Perguntam: está aí alguém? estou, respondo a meia voz. E sim, estou deveras ocupada.
Oito minutos.
Isto é uma casa de banho pública. Num café qualquer. Nesta ou noutra cidade. Pouco importa.
Solto os cabelos e desaperto o blaser preto. Tiro as argolas e observo o anel de brilhantes que cai dos meus dedos.
Os botões pequenos da camisa branca são arrancados depressa. Depressa, porque não quero pensar. É a velocidade do contra-relógio. A urgência do momento. A intensidade do grito que calo diariamente.
Seis minutos.
Os meus dedos afagam a suavidade do cetim. Acaricio as alças do soutien, fazendo-as deslizar através do braço. Lentamente. Tenho saudades. Tenho sede. Tenho um medo imenso. Abraço-me com força. Preciso de me fazer sentir quente. Carne minha. Crua de ti. Tijoleira fria.
Cinco minutos.
Fecho os olhos e aquieto-me no reflexo imaginário deste corpo despido. O meu corpo, relembro-me.
Sinto-me embalada pela letargia morna do desejo. Sou só eu. Embalada neste torpor de prazer roubado. Ao espelho.
Dois minutos.
Retoco o cabelo e apanho as últimas madeixas num penteado perfeito. Esta sou eu. Um pouco sozinha. Emoldurada na tela do tempo.
Um minuto.
Já vou, respondo a alguém que bate insistentemente. Passaram dez minutos. De mim.
Publicada por
Rute Coelho
à(s)
terça-feira, março 08, 2011
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
terça-feira, janeiro 18, 2011
Frango com cerveja.
Temos os filhos feitos. A banda sonora do depois escolhidada a dedo. Os nomes, se forem rapazes, ou se forem raparigas. O homem da loja vem entregar o sofá dentro de meia hora, garantiram-me.. E tu despesdes-te. As cervejas no frigorifico. Apetece-me frango para o jantar, o que achas? Não sei ter estes filhos sem ti. A idade limitada pela merda da biologia. Não haverá tempo para ter outros filhos. Contento-me com estes. E tu despesdes-te.
Publicada por
Rute Coelho
à(s)
terça-feira, janeiro 18, 2011
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
quinta-feira, janeiro 13, 2011
E se me faltarem as pernas?
E se me faltarem as pernas? Se os meus passos não forem suficientemente velozes para te alcançar? E se o comprimento do que nos separa se revelar no incumprimento das quimeras que alimentámos? Se a minha voz for apenas ruído para os teus ouvidos? E se as palavras que te deliciavam em noites de tédio se transformarem em repetivas e solitárias orações?
E se os meus olhos castanho de amêndoa te amarguarem os dedos no piano? E se o bolo de limão não crescer? Se o leite coalhar no meu peito? E se o meu ventre for apenas grande e oco? Se me fugires?
E se me faltarem as pernas para te alcançar.
E se os meus olhos castanho de amêndoa te amarguarem os dedos no piano? E se o bolo de limão não crescer? Se o leite coalhar no meu peito? E se o meu ventre for apenas grande e oco? Se me fugires?
E se me faltarem as pernas para te alcançar.
Publicada por
Rute Coelho
à(s)
quinta-feira, janeiro 13, 2011
1 comentário:
Hiperligações para esta mensagem
domingo, janeiro 09, 2011
Quase sem futuro
Estico ainda um braço seco e magro para um pássaro pousar. Outrora os meus ramos eram enfeitados de folhas, frutos e flores. Eram fortes. Hoje já nem sequer consigo carregar todos os meus ramos, prefiro deixar-me oscilar com a passagem do vento, o meu antigo companheiro.
No meu tronco guardo ainda as memórias do meu passado feito de marcas de diversos pássaros que já alojei e pedaços dos seus ninhos. Na minha barriga oca conservo os restos de nozes que os meus amigos esquilos deixaram.
Com saudade, recordo os tempos, em que as crianças construíram em mim, casas de madeira, e lá recriavam mundos entre tachinhos e espiões. Depois essas mesmas crianças, apaixonavam-se debaixo dos seus ramos e amavam-se nas casas de madeira.
Eu também já me apaixonei... O amor aconteceu quando uma criança plantou perto de mim um pinheiro. Foi há muitos anos, num Dia Mundial da Árvore. Deslumbrei-me por ele. Observei o crescimento, ensinei-o a defender-se dos homens maus e por tempos infinitos, contemplei-o em silêncio.
O seu primeiro Inverno foi horrível. Vi-o lutar contra o vento, numa combate desigual. A sua espessura era semelhante ao cajado de um pastor. O vento foi mau nesse Inverno. Mas o pinheiro resistiu e desafiou a Natureza. Quase venceu.
A Primavera apareceu muito perto do que deveriam ser os meses de Verão. Nessa altura de noites curtas, eu e ele habituámo-nos a contemplar em silêncio. No entanto havia dias em que ele se tapava com os seus ramos finos para que eu não o visse chorar. E só eu o sabia. Com os meus ramos, afastava os dele e apontava-lhe o Sol. Falava-lhe baixinho, com palavras pequenas que fui buscar às minhas raízes e consolava-o assim.
No dia mais comprido do ano, arrisquei quase tudo. Quase ganhei. As nossas folhas tocaram-se apaixonadamente e misturámos os nossos ramos. Mais tarde os nossos troncos dançaram ao som de uma música branca. A do Futuro. Trocámos promessas, que soubemos desde sempre serem impossíveis. Seria o nosso amor mais forte do que os apelos das nossas raízes?
Elas pediam solidão. Nós prometíamos amor. Tudo ou quase tudo tem um fim. Mesmo que seja um fim repleto de coisas por acontecerem, como era o nosso.
Inverno, após Inverno, o meu pinheiro suplica ao vento que o derrube. Mas o vento responde-lhe sempre que as árvores morrem de pé.
Continuo ainda a amá-lo. O seu tronco curvado e fino faz lembrar uma cana de pesca. Não tem folhas, flores ou frutos. E eu lentamente vou-me deixando morrer também. Sem que ninguém perceba. Morro de pé. Sozinha.
Concedo-me a alegria (quase a última) de tocar no pinheiro. Ele sente. Submersas, as nossas raízes abraçam-se para sempre no futuro. Já não dançamos. Mas é o som dessa música branca que nos embala no colo da Morte. Já não temos medo. O futuro é amanhã. É a morte que nos chama. Já é quase amanhã...
No meu tronco guardo ainda as memórias do meu passado feito de marcas de diversos pássaros que já alojei e pedaços dos seus ninhos. Na minha barriga oca conservo os restos de nozes que os meus amigos esquilos deixaram.
Com saudade, recordo os tempos, em que as crianças construíram em mim, casas de madeira, e lá recriavam mundos entre tachinhos e espiões. Depois essas mesmas crianças, apaixonavam-se debaixo dos seus ramos e amavam-se nas casas de madeira.
Eu também já me apaixonei... O amor aconteceu quando uma criança plantou perto de mim um pinheiro. Foi há muitos anos, num Dia Mundial da Árvore. Deslumbrei-me por ele. Observei o crescimento, ensinei-o a defender-se dos homens maus e por tempos infinitos, contemplei-o em silêncio.
O seu primeiro Inverno foi horrível. Vi-o lutar contra o vento, numa combate desigual. A sua espessura era semelhante ao cajado de um pastor. O vento foi mau nesse Inverno. Mas o pinheiro resistiu e desafiou a Natureza. Quase venceu.
A Primavera apareceu muito perto do que deveriam ser os meses de Verão. Nessa altura de noites curtas, eu e ele habituámo-nos a contemplar em silêncio. No entanto havia dias em que ele se tapava com os seus ramos finos para que eu não o visse chorar. E só eu o sabia. Com os meus ramos, afastava os dele e apontava-lhe o Sol. Falava-lhe baixinho, com palavras pequenas que fui buscar às minhas raízes e consolava-o assim.
No dia mais comprido do ano, arrisquei quase tudo. Quase ganhei. As nossas folhas tocaram-se apaixonadamente e misturámos os nossos ramos. Mais tarde os nossos troncos dançaram ao som de uma música branca. A do Futuro. Trocámos promessas, que soubemos desde sempre serem impossíveis. Seria o nosso amor mais forte do que os apelos das nossas raízes?
Elas pediam solidão. Nós prometíamos amor. Tudo ou quase tudo tem um fim. Mesmo que seja um fim repleto de coisas por acontecerem, como era o nosso.
Inverno, após Inverno, o meu pinheiro suplica ao vento que o derrube. Mas o vento responde-lhe sempre que as árvores morrem de pé.
Continuo ainda a amá-lo. O seu tronco curvado e fino faz lembrar uma cana de pesca. Não tem folhas, flores ou frutos. E eu lentamente vou-me deixando morrer também. Sem que ninguém perceba. Morro de pé. Sozinha.
Concedo-me a alegria (quase a última) de tocar no pinheiro. Ele sente. Submersas, as nossas raízes abraçam-se para sempre no futuro. Já não dançamos. Mas é o som dessa música branca que nos embala no colo da Morte. Já não temos medo. O futuro é amanhã. É a morte que nos chama. Já é quase amanhã...
Publicada por
Rute Coelho
à(s)
domingo, janeiro 09, 2011
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
sábado, janeiro 08, 2011
Mimos e motivos.
Fiz-te o café e as torradas com manteiga dos dois lados e mel a cobrir, mas só na face superior. Calcei os ténis, há tempo que não conheço outro tipo de sapatos, vesti a gabardine e peguei nas trelas dos cães. Agora é proibido deixá-los correr livremente. A liberdade até se proibe aos cães.
A tempo de fechar a porta, ouço o teu assobio matinal e adivinho os teus passos que se encaminham para a banheira que já deixei cheia de água quente com os teus sais marinhos.
Sentes os meus passos apressados na escada de madeira, abres a porta e seguras-me a mão no último degrau. beijas-me a mão e dizes bom-dia. Ajeito-te a gravata e afasto uma poeira imaginária do teu casaco.
Não são mimos. São o motivo dos meus dias.
Publicada por
Rute Coelho
à(s)
sábado, janeiro 08, 2011
1 comentário:
Hiperligações para esta mensagem
quarta-feira, janeiro 05, 2011
Como tu:
Senti de novo aquela violência a conquistar o espaço do meu corpo: as pernas a pontapearam o vazio, o ardor nos braços e depois de tudo a cegueira no olhar. no teu e no meu. Não sei se nos vemos quando disparamos um contra o outro . Sei que dói demasiado o embate. Sei que tenho imenso medo da minha força. De perder o controle do meu braço direito e de este não conseguir parar o movimento da jarra contra a tua face. Nunca como hoje esteve tão perto. Nunca como hoje estive tão longe de mim.
Passei anos a tentar esquecer que tenho essa violência bruta incrustada, que ela faz parte de uma herança genética que tento rejeitar diariamente. Passei anos a tentar acreditar em tudo o que outros escrevem em cartões de aniversário ou sussuram ao ouvido em noites quentes. Hoje, bastaste tu, os golpes desferidos e as palavras de crueldade de sempre, e num sopro de vento desmoronei-me. Como sempre e desde sempre.
Fica a ferida no lábio e no nariz. Fica o sangue. Ficam as tuas palavras que ecoam na minha cabeça como um disco riscado. Tenho medo de um dia vir a ser como tu.
Passei anos a tentar esquecer que tenho essa violência bruta incrustada, que ela faz parte de uma herança genética que tento rejeitar diariamente. Passei anos a tentar acreditar em tudo o que outros escrevem em cartões de aniversário ou sussuram ao ouvido em noites quentes. Hoje, bastaste tu, os golpes desferidos e as palavras de crueldade de sempre, e num sopro de vento desmoronei-me. Como sempre e desde sempre.
Fica a ferida no lábio e no nariz. Fica o sangue. Ficam as tuas palavras que ecoam na minha cabeça como um disco riscado. Tenho medo de um dia vir a ser como tu.
Publicada por
Rute Coelho
à(s)
quarta-feira, janeiro 05, 2011
1 comentário:
Hiperligações para esta mensagem
quinta-feira, dezembro 30, 2010
Biografia
Hoje mais velha.
Antes de ser gente, queria ser pedra. Pelo som da palavra. Depois poeta. Porque também gostava do som da palavra. Poeta, era o nome de todos os meus peluches. Antes de saber escrever, quis ser escritora, porque contava estórias a mim mesma para adormecer. O jornalismo, a profissão óbvia, foi apenas uma breve passagem. Fiquei-me pelo Direito. De usar as palavras. Pelos outros.
Hoje mais velha.
Ainda quero ser pedra. Pela dureza de que são feitas. Porque não se partem. Como eu que me lasco um pouco mais em cada queda. Já não quero ser poeta. Os poetas conhecem bem demais a textura das lágrimas.
Hoje mais velha.
Talvez ainda escritora. O sonho dos sonhos. Porque ainda me conto estórias para adormecer nos dias maus.
O Direito das palavras corre-me por entre os dedos e transparece-me na voz.
Antes de ser gente, queria ser pedra. Pelo som da palavra. Depois poeta. Porque também gostava do som da palavra. Poeta, era o nome de todos os meus peluches. Antes de saber escrever, quis ser escritora, porque contava estórias a mim mesma para adormecer. O jornalismo, a profissão óbvia, foi apenas uma breve passagem. Fiquei-me pelo Direito. De usar as palavras. Pelos outros.
Hoje mais velha.
Ainda quero ser pedra. Pela dureza de que são feitas. Porque não se partem. Como eu que me lasco um pouco mais em cada queda. Já não quero ser poeta. Os poetas conhecem bem demais a textura das lágrimas.
Hoje mais velha.
Talvez ainda escritora. O sonho dos sonhos. Porque ainda me conto estórias para adormecer nos dias maus.
O Direito das palavras corre-me por entre os dedos e transparece-me na voz.
Publicada por
Rute Coelho
à(s)
quinta-feira, dezembro 30, 2010
4 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
Subscrever:
Mensagens (Atom)