Olha por mim, mesmo quando eu te repetir que não preciso de nada. Nesses momentos em que finjo ser forte e estancar as lágrimas com uma pedra atirada ao lago, preciso ainda mais de ti. Porque não falo, não grito, mas morro por dentro. Apanha esses pedaços de mim e reconstrói-me devagar.
Olha por mim, quando eu tiver medo do escuro. As pernas fraquejam, os braços caiem postrados, o corpo desconjunta-se e os olhos não vislumbram nada de bom. Existirás tu, a tua voz e o teu abraço.
Não sei ser muito, admito. Cuida de mim.
terça-feira, agosto 23, 2011
domingo, julho 24, 2011
Desculpa
Desculpa se dói ou se não é suposto confessar coisas destas. Nos dias que correm, acredita, esforço-me imenso para não errar. Para corresponder a expectativas; quase todas, as tuas, as da família, as do trabalho.. Por vezes falta tudo; a palavra certa, o gesto correspondente. E tu.
Desculpa se causo incómodo ou se abalo o silêncio. A ausência tem destas invenções; quebra corações. Mesmo aqueles que se queriam gelados e inamovíveis perante as emoções.
Desculpa os esconderijos que invento porque não te tenho como um direito que possa sequer almejar. Fujo e corro porque talvez sejas tu o meu destino. Nunca quis querer-te.
Desculpa, sinto a tua falta. É uma merda dizer-te, mas a vida também é assim.
Desculpa se causo incómodo ou se abalo o silêncio. A ausência tem destas invenções; quebra corações. Mesmo aqueles que se queriam gelados e inamovíveis perante as emoções.
Desculpa os esconderijos que invento porque não te tenho como um direito que possa sequer almejar. Fujo e corro porque talvez sejas tu o meu destino. Nunca quis querer-te.
Desculpa, sinto a tua falta. É uma merda dizer-te, mas a vida também é assim.
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Rute Coelho
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sábado, julho 02, 2011
Medo
Não conto nada de ti. Agora sou só eu. Não me interessam as rosas brancas que prendias no cabelo segurando as tranças. A água cai continuamente e finda-se pelo ralo da banheira. Dirias: não desperdices a água. Responder-te-ia: a água está cada vez mais cara, mas não te preocupes que eu depois pago.
Farias uma maldade qualquer em jeito de criança, como desligar o esquentador. Eu sorriria e seriam assim os nossos os dias até quando a água parasse de jorrar nesta casa de tostão enforcado pelo sacrifício dos sonhos difíceis. Queríamos ficar juntos e aqui.
Nunca gostei muito de ti até me estalares o coração. Quase que me afogo na água da banheira, pelo que poderei ser honesto e revelar, que não foi o amor ou a paixão que nos juntou. Era mais certa a vida contigo. Só isso. Tão certa, senti eu quando dissemos o sim. Ainda mais, quando te agarrei a mão com força e te deixei morrer.
Dói-me o amanhã porque tu não estás. A água já nem sequer pára em mim. Deixa-se ir no tempo das pequenas coisas que foram-se ausentando de mim. Como o sorriso que se foi desgastando em esgares esforçados. O depois de amanhã será então tenebroso. E o depois mete medo.
Mergulho na água morna e deixo-me ficar.
Farias uma maldade qualquer em jeito de criança, como desligar o esquentador. Eu sorriria e seriam assim os nossos os dias até quando a água parasse de jorrar nesta casa de tostão enforcado pelo sacrifício dos sonhos difíceis. Queríamos ficar juntos e aqui.
Nunca gostei muito de ti até me estalares o coração. Quase que me afogo na água da banheira, pelo que poderei ser honesto e revelar, que não foi o amor ou a paixão que nos juntou. Era mais certa a vida contigo. Só isso. Tão certa, senti eu quando dissemos o sim. Ainda mais, quando te agarrei a mão com força e te deixei morrer.
Dói-me o amanhã porque tu não estás. A água já nem sequer pára em mim. Deixa-se ir no tempo das pequenas coisas que foram-se ausentando de mim. Como o sorriso que se foi desgastando em esgares esforçados. O depois de amanhã será então tenebroso. E o depois mete medo.
Mergulho na água morna e deixo-me ficar.
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quinta-feira, junho 30, 2011
E não choveu.
Não choveu ontem.Voltou a época dos incêndios. E dos terramotos que me acontecem na pele. Um tsunami pode invadir-me os olhos e provocar estragos. Depois o calor regressa, secando tudo. Arde apenas.
P.S- Chamem o 112, as queimaduras adivinham-se profundas. Um beijo para quem fica.
P.S- Chamem o 112, as queimaduras adivinham-se profundas. Um beijo para quem fica.
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terça-feira, maio 24, 2011
Só faltava chover.
Tínhamos o abraço apertado, a lágrima a querer aquecer o olho, um desejo surreal a nascer, um beijo tímido a acontecer. Só faltava chover.
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sábado, abril 09, 2011
Faz-me falta este livro
Acho que te preciso de escrever um livro.
Para?
Um livro com as pequenas histórias que foram ficando de fora dos álbuns de fotografias, dos diários e dos livros de receitas e apontamentos da avó Teresa.
Para?
Um livro de palavras estranhas, ousadas e difíceis. Terias decerto de consultar dicionários antigos.
Para?
Um livro- mapa-ampulheta.
Para?
Para que não te percas nas paragens do tempo.
Para?
Um livro com as pequenas histórias que foram ficando de fora dos álbuns de fotografias, dos diários e dos livros de receitas e apontamentos da avó Teresa.
Para?
Um livro de palavras estranhas, ousadas e difíceis. Terias decerto de consultar dicionários antigos.
Para?
Um livro- mapa-ampulheta.
Para?
Para que não te percas nas paragens do tempo.
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terça-feira, março 08, 2011
Dez minutos
Um pouco de silêncio. Um espelho. Uma parede para me encostar e poder escorregar. Até ficar sentada no chão. De joelhos flectidos. Sim, sei que a saia vai ficar desalinhada. Dá-me dez minutos assim. Para mim. Em que eu possa ser, desesperadamente, eu. Ou uma outra qualquer. Às tantas uma pessoa cansa-se de ser sempre a mesma.
Nove minutos.
E quero mudar. De corpo, de coração e até talvez de alma.
Descalço os sapatos. Deixo que as meias finas de vidro pisem a tijoleira fria e barata. Do outro lado desta porta feita de chapa de alumínio, ouço vozes e pancadas na porta. Perguntam: está aí alguém? estou, respondo a meia voz. E sim, estou deveras ocupada.
Oito minutos.
Isto é uma casa de banho pública. Num café qualquer. Nesta ou noutra cidade. Pouco importa.
Solto os cabelos e desaperto o blaser preto. Tiro as argolas e observo o anel de brilhantes que cai dos meus dedos.
Os botões pequenos da camisa branca são arrancados depressa. Depressa, porque não quero pensar. É a velocidade do contra-relógio. A urgência do momento. A intensidade do grito que calo diariamente.
Seis minutos.
Os meus dedos afagam a suavidade do cetim. Acaricio as alças do soutien, fazendo-as deslizar através do braço. Lentamente. Tenho saudades. Tenho sede. Tenho um medo imenso. Abraço-me com força. Preciso de me fazer sentir quente. Carne minha. Crua de ti. Tijoleira fria.
Cinco minutos.
Fecho os olhos e aquieto-me no reflexo imaginário deste corpo despido. O meu corpo, relembro-me.
Sinto-me embalada pela letargia morna do desejo. Sou só eu. Embalada neste torpor de prazer roubado. Ao espelho.
Dois minutos.
Retoco o cabelo e apanho as últimas madeixas num penteado perfeito. Esta sou eu. Um pouco sozinha. Emoldurada na tela do tempo.
Um minuto.
Já vou, respondo a alguém que bate insistentemente. Passaram dez minutos. De mim.
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terça-feira, janeiro 18, 2011
Frango com cerveja.
Temos os filhos feitos. A banda sonora do depois escolhidada a dedo. Os nomes, se forem rapazes, ou se forem raparigas. O homem da loja vem entregar o sofá dentro de meia hora, garantiram-me.. E tu despesdes-te. As cervejas no frigorifico. Apetece-me frango para o jantar, o que achas? Não sei ter estes filhos sem ti. A idade limitada pela merda da biologia. Não haverá tempo para ter outros filhos. Contento-me com estes. E tu despesdes-te.
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terça-feira, janeiro 18, 2011
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quinta-feira, janeiro 13, 2011
E se me faltarem as pernas?
E se me faltarem as pernas? Se os meus passos não forem suficientemente velozes para te alcançar? E se o comprimento do que nos separa se revelar no incumprimento das quimeras que alimentámos? Se a minha voz for apenas ruído para os teus ouvidos? E se as palavras que te deliciavam em noites de tédio se transformarem em repetivas e solitárias orações?
E se os meus olhos castanho de amêndoa te amarguarem os dedos no piano? E se o bolo de limão não crescer? Se o leite coalhar no meu peito? E se o meu ventre for apenas grande e oco? Se me fugires?
E se me faltarem as pernas para te alcançar.
E se os meus olhos castanho de amêndoa te amarguarem os dedos no piano? E se o bolo de limão não crescer? Se o leite coalhar no meu peito? E se o meu ventre for apenas grande e oco? Se me fugires?
E se me faltarem as pernas para te alcançar.
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domingo, janeiro 09, 2011
Quase sem futuro
Estico ainda um braço seco e magro para um pássaro pousar. Outrora os meus ramos eram enfeitados de folhas, frutos e flores. Eram fortes. Hoje já nem sequer consigo carregar todos os meus ramos, prefiro deixar-me oscilar com a passagem do vento, o meu antigo companheiro.
No meu tronco guardo ainda as memórias do meu passado feito de marcas de diversos pássaros que já alojei e pedaços dos seus ninhos. Na minha barriga oca conservo os restos de nozes que os meus amigos esquilos deixaram.
Com saudade, recordo os tempos, em que as crianças construíram em mim, casas de madeira, e lá recriavam mundos entre tachinhos e espiões. Depois essas mesmas crianças, apaixonavam-se debaixo dos seus ramos e amavam-se nas casas de madeira.
Eu também já me apaixonei... O amor aconteceu quando uma criança plantou perto de mim um pinheiro. Foi há muitos anos, num Dia Mundial da Árvore. Deslumbrei-me por ele. Observei o crescimento, ensinei-o a defender-se dos homens maus e por tempos infinitos, contemplei-o em silêncio.
O seu primeiro Inverno foi horrível. Vi-o lutar contra o vento, numa combate desigual. A sua espessura era semelhante ao cajado de um pastor. O vento foi mau nesse Inverno. Mas o pinheiro resistiu e desafiou a Natureza. Quase venceu.
A Primavera apareceu muito perto do que deveriam ser os meses de Verão. Nessa altura de noites curtas, eu e ele habituámo-nos a contemplar em silêncio. No entanto havia dias em que ele se tapava com os seus ramos finos para que eu não o visse chorar. E só eu o sabia. Com os meus ramos, afastava os dele e apontava-lhe o Sol. Falava-lhe baixinho, com palavras pequenas que fui buscar às minhas raízes e consolava-o assim.
No dia mais comprido do ano, arrisquei quase tudo. Quase ganhei. As nossas folhas tocaram-se apaixonadamente e misturámos os nossos ramos. Mais tarde os nossos troncos dançaram ao som de uma música branca. A do Futuro. Trocámos promessas, que soubemos desde sempre serem impossíveis. Seria o nosso amor mais forte do que os apelos das nossas raízes?
Elas pediam solidão. Nós prometíamos amor. Tudo ou quase tudo tem um fim. Mesmo que seja um fim repleto de coisas por acontecerem, como era o nosso.
Inverno, após Inverno, o meu pinheiro suplica ao vento que o derrube. Mas o vento responde-lhe sempre que as árvores morrem de pé.
Continuo ainda a amá-lo. O seu tronco curvado e fino faz lembrar uma cana de pesca. Não tem folhas, flores ou frutos. E eu lentamente vou-me deixando morrer também. Sem que ninguém perceba. Morro de pé. Sozinha.
Concedo-me a alegria (quase a última) de tocar no pinheiro. Ele sente. Submersas, as nossas raízes abraçam-se para sempre no futuro. Já não dançamos. Mas é o som dessa música branca que nos embala no colo da Morte. Já não temos medo. O futuro é amanhã. É a morte que nos chama. Já é quase amanhã...
No meu tronco guardo ainda as memórias do meu passado feito de marcas de diversos pássaros que já alojei e pedaços dos seus ninhos. Na minha barriga oca conservo os restos de nozes que os meus amigos esquilos deixaram.
Com saudade, recordo os tempos, em que as crianças construíram em mim, casas de madeira, e lá recriavam mundos entre tachinhos e espiões. Depois essas mesmas crianças, apaixonavam-se debaixo dos seus ramos e amavam-se nas casas de madeira.
Eu também já me apaixonei... O amor aconteceu quando uma criança plantou perto de mim um pinheiro. Foi há muitos anos, num Dia Mundial da Árvore. Deslumbrei-me por ele. Observei o crescimento, ensinei-o a defender-se dos homens maus e por tempos infinitos, contemplei-o em silêncio.
O seu primeiro Inverno foi horrível. Vi-o lutar contra o vento, numa combate desigual. A sua espessura era semelhante ao cajado de um pastor. O vento foi mau nesse Inverno. Mas o pinheiro resistiu e desafiou a Natureza. Quase venceu.
A Primavera apareceu muito perto do que deveriam ser os meses de Verão. Nessa altura de noites curtas, eu e ele habituámo-nos a contemplar em silêncio. No entanto havia dias em que ele se tapava com os seus ramos finos para que eu não o visse chorar. E só eu o sabia. Com os meus ramos, afastava os dele e apontava-lhe o Sol. Falava-lhe baixinho, com palavras pequenas que fui buscar às minhas raízes e consolava-o assim.
No dia mais comprido do ano, arrisquei quase tudo. Quase ganhei. As nossas folhas tocaram-se apaixonadamente e misturámos os nossos ramos. Mais tarde os nossos troncos dançaram ao som de uma música branca. A do Futuro. Trocámos promessas, que soubemos desde sempre serem impossíveis. Seria o nosso amor mais forte do que os apelos das nossas raízes?
Elas pediam solidão. Nós prometíamos amor. Tudo ou quase tudo tem um fim. Mesmo que seja um fim repleto de coisas por acontecerem, como era o nosso.
Inverno, após Inverno, o meu pinheiro suplica ao vento que o derrube. Mas o vento responde-lhe sempre que as árvores morrem de pé.
Continuo ainda a amá-lo. O seu tronco curvado e fino faz lembrar uma cana de pesca. Não tem folhas, flores ou frutos. E eu lentamente vou-me deixando morrer também. Sem que ninguém perceba. Morro de pé. Sozinha.
Concedo-me a alegria (quase a última) de tocar no pinheiro. Ele sente. Submersas, as nossas raízes abraçam-se para sempre no futuro. Já não dançamos. Mas é o som dessa música branca que nos embala no colo da Morte. Já não temos medo. O futuro é amanhã. É a morte que nos chama. Já é quase amanhã...
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