quarta-feira, setembro 28, 2011

Um século

Hoje tive um acidente e no segundos antes de ter medo, pensei em ti. Farias cem anos se estivesses por cá.  Sejas pó de estrelas, sejas ossos guardados num gavetão do cemitério, hoje abriste-me os braços. Tive saudades tuas. E não tive medo, avô.

sábado, setembro 10, 2011

A nossa história

A nossa história seria um bom enredo.

É igual a outras tantas.

É diferente.

Porquê?

Tem a distância dos anos acumulado com o cinismo do que se passou e é conjugada na ingenuidade da adolescência.

Em qualquer lado há uma boa história pronta a ser vivida.

Menos no teu coração?

Menos no meu coração.

terça-feira, agosto 23, 2011

Cuida de mim

Olha por mim, mesmo quando eu te repetir que não preciso de nada. Nesses momentos em que finjo ser forte e estancar as lágrimas com uma pedra atirada ao lago, preciso ainda mais de ti. Porque não falo, não grito, mas morro por dentro. Apanha esses pedaços de mim e reconstrói-me devagar.

Olha por mim, quando eu tiver medo do escuro. As pernas fraquejam, os braços caiem postrados, o corpo desconjunta-se e os olhos não vislumbram nada de bom. Existirás tu, a tua voz e o teu abraço.

Não sei ser muito, admito. Cuida de mim.




domingo, julho 24, 2011

Desculpa

Desculpa se dói ou se não é suposto confessar coisas destas. Nos dias que correm, acredita, esforço-me imenso para não errar. Para corresponder a expectativas; quase todas, as tuas, as da família, as do trabalho.. Por vezes falta tudo; a palavra certa, o gesto correspondente. E tu.


Desculpa se causo incómodo ou se abalo o silêncio. A ausência tem destas invenções; quebra corações. Mesmo aqueles que se queriam gelados e inamovíveis perante as emoções.

Desculpa os esconderijos que invento porque não te tenho como um direito que possa sequer almejar. Fujo e corro porque talvez sejas tu o meu destino. Nunca quis querer-te.

Desculpa, sinto a tua falta. É uma merda dizer-te, mas a vida também é assim.

sábado, julho 02, 2011

Medo

Não conto nada de ti. Agora sou só eu. Não me interessam as rosas brancas que prendias no cabelo segurando as tranças. A água cai continuamente e finda-se pelo ralo da banheira. Dirias: não desperdices a água. Responder-te-ia: a água está cada vez mais cara, mas não te preocupes que eu depois pago.


Farias uma maldade qualquer em jeito de criança, como desligar o esquentador. Eu sorriria e seriam assim os nossos os dias até quando a água parasse de jorrar nesta casa de tostão enforcado pelo sacrifício dos sonhos difíceis. Queríamos ficar juntos e aqui.

Nunca gostei muito de ti até me estalares o coração. Quase que me afogo na água da banheira, pelo que poderei ser honesto e revelar, que não foi o amor ou a paixão que nos juntou. Era mais certa a vida contigo. Só isso. Tão certa, senti eu quando dissemos o sim. Ainda mais, quando te agarrei a mão com força e te deixei morrer.
Dói-me o amanhã porque tu não estás. A água já nem sequer pára em mim. Deixa-se ir no tempo das pequenas coisas que foram-se ausentando de mim. Como o sorriso que se foi desgastando em esgares esforçados. O depois de amanhã será então tenebroso. E o depois mete medo.


Mergulho na água morna e deixo-me ficar.

quinta-feira, junho 30, 2011

E não choveu.

Não choveu ontem.Voltou a época dos incêndios. E dos terramotos que me acontecem na pele. Um tsunami pode invadir-me os olhos e provocar estragos. Depois o calor regressa, secando tudo. Arde apenas.




P.S- Chamem o 112, as queimaduras adivinham-se profundas. Um beijo para quem fica.

terça-feira, maio 24, 2011

Só faltava chover.

Tínhamos o abraço apertado, a lágrima a querer aquecer o olho, um desejo surreal a nascer, um beijo tímido a acontecer. Só faltava chover.

sábado, abril 09, 2011

Faz-me falta este livro

Acho que te preciso de escrever um livro.

Para?

Um livro com as pequenas histórias que foram ficando de fora dos álbuns de fotografias, dos diários e dos livros de receitas e apontamentos da avó Teresa.

Para?

Um livro de palavras estranhas, ousadas e difíceis. Terias decerto de consultar dicionários antigos.

Para?

Um livro- mapa-ampulheta.

Para?

Para que não te percas nas paragens do tempo.

terça-feira, março 08, 2011

Dez minutos


Dá-me dez minutos.

Um pouco de silêncio. Um espelho. Uma parede para me encostar e poder escorregar. Até ficar sentada no chão. De joelhos flectidos. Sim, sei que a saia vai ficar desalinhada. Dá-me dez minutos assim. Para mim. Em que eu possa ser, desesperadamente, eu. Ou uma outra qualquer. Às tantas uma pessoa cansa-se de ser sempre a mesma.

Nove minutos.

E quero mudar. De corpo, de coração e até talvez de alma.

Descalço os sapatos. Deixo que as meias finas de vidro pisem a tijoleira fria e barata. Do outro lado desta porta feita de chapa de alumínio, ouço vozes e pancadas na porta. Perguntam: está aí alguém? estou, respondo a meia voz. E sim, estou deveras ocupada.

Oito minutos.

Isto é uma casa de banho pública. Num café qualquer. Nesta ou noutra cidade. Pouco importa.

Solto os cabelos e desaperto o blaser preto. Tiro as argolas e observo o anel de brilhantes que cai dos meus dedos.

Os botões pequenos da camisa branca são arrancados depressa. Depressa, porque não quero pensar. É a velocidade do contra-relógio. A urgência do momento. A intensidade do grito que calo diariamente.

Seis minutos.

Os meus dedos afagam a suavidade do cetim. Acaricio as alças do soutien, fazendo-as deslizar através do braço. Lentamente. Tenho saudades. Tenho sede. Tenho um medo imenso. Abraço-me com força. Preciso de me fazer sentir quente. Carne minha. Crua de ti. Tijoleira fria.

Cinco minutos.

Fecho os olhos e aquieto-me no reflexo imaginário deste corpo despido. O meu corpo, relembro-me.

Sinto-me embalada pela letargia morna do desejo. Sou só eu. Embalada neste torpor de prazer roubado. Ao espelho.

Dois minutos.

Retoco o cabelo e apanho as últimas madeixas num penteado perfeito. Esta sou eu. Um pouco sozinha. Emoldurada na tela do tempo.

Um minuto.

Já vou, respondo a alguém que bate insistentemente. Passaram dez minutos. De mim.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Frango com cerveja.

Temos os filhos feitos. A banda sonora do depois escolhidada a dedo. Os nomes, se forem rapazes, ou se forem raparigas. O homem da loja vem entregar o sofá dentro de meia hora, garantiram-me.. E tu despesdes-te. As cervejas no frigorifico. Apetece-me frango para o jantar, o que achas?  Não sei ter estes filhos sem ti.  A idade limitada pela merda da biologia. Não haverá tempo para ter outros filhos. Contento-me com estes. E tu despesdes-te.