terça-feira, março 13, 2012

Não sei se resisto à tua primavera

Foi um Novembro espesso e encorpado que se entranhou em nós, noite de trovões avassaladora e urgente, sem demoras, porque se sangrou a vida pelos dentes em forma de beijos, e beijos a fazer as vezes de promessas. As promessas de nunca mais a substituirem as chaves dos  afectos encacerados.
O vinho quente destronou a lágrima e Março aconteceu no café  que sobe nas esferas de vidro aromatizando lentamente a casa.  Ainda não sei se resisto à tua primavera. A lamparina continua acesa. Não preciso de mais nada.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Amanhã de ti

Chegarei a casa e darei por ti. Pela tua ausência mascarada pela falta
de uma peça qualquer. Sou mulher. Talvez por essa condição seja dada a
pormenores, perdoa-me por isso saber o lugar exacto onde estava então o teu
candeeiro artesanal feito com o tripé de uma antiga máquina fotográfica, os
postais, as revistas, os binóculos, os flyers da tua última exposição ou
quaisquer restos de ti.

Sei de tudo e sei que tudo vai embora. Fotografo tudo nos seus lugares de hoje, para que permaneça em algum lugar inalterável. Para que o tempo se suspenda neste momento e o amanhã não tenha que acontecer para nós. Para que não me sobrem apenas restos de ti.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Algodão-Doce

No teu olhar esconde-se ainda a pornografia do sorriso pelo qual me apaixonei. Foi assim, nunca te confessarei, mas foram os teus lábios que me seduziram. A expresssão doce reflectida nos lábios rasgados que advinhavam a bolinha vermelha no canto superior do ecrã para maiores de dezoito, de vinte e um ou até eventualmente trinta. Senti-me a crescer, inchar como um balão. E a subir, como na música.

Serei exagerada e impúdica também se revelar que toco no céu. Não faz mal. O céu existe para isso mesmo para ser partilhado em momentos assim. De algodão-doce.


domingo, dezembro 04, 2011

Sapatos e Almofadas


Tenho-me em janelas por abrir e camas frias sem lençóis, excesso de madeira preta e fogueiras por incendiar. Há almofadas que se quedam no percurso que desconhecemos o desfecho. Há caminhos que podemos quantificar os passos como com estes sapatos. Sei muito pouco de tudo isto. Sei aliás muito pouco de tudo. Sou incompleta como o vento que sopra lá fora e me rasga a voz. É estranho e irreal, dirás. Direi que sim. Porque sim.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Poesia

A poesia está aqui ;na ponta dos meus dedos que acariam a tua pele, nos meus beijos que provocam a tua pele molhada, nos teus cabelos que emolduram o meu rosto de mulher. A poesia está nos dedos que se procuram e se entrelaçam mesmo enquanto dormimos, no rosto que se descontraem em sorrisos abertos para o mundo. Esta é a verdadeira poesia que reconheço nas minhas entranhas, nos sonhos que se constroem às escondidas das realidade pragrmática do muros e das defesas. A minha poesia não conhece fronteiras, nem metralhadoras, nem chaimites, é nua e crua. Existe porque é tua.

Tempestades

Estalam os céus sobre mim. A electricidade das palavras impede-me de fechar os olhos e a noite percorre o tempo das emoções. As cores desenham histórias e traçam caminhos até chegar ao fim do arco íris. Tu: o tesouro.

segunda-feira, novembro 14, 2011

Na almofada

Ficou o beijo preso na almofada. Assim tenho a certeza que um destes dias voltarás para o resgastar.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Abraços.

Olhou-se ao espelho e percebeu que lhe fazia falta um abraço. Dos verdadeiros, daqueles em que a cabeça se encaixa no ombro, confia-se e pronto. Com ou sem lágrimas. Também percebeu que não havia ninguém para isso.

E pior de tudo: ainda não sabia abraçar-se.

Elogio da ignorância

- Basta a verdade. Ela é sempre libertadora e definitiva. 

- Borrifa-te nisso,  a ignorância permite-nos acarinhar um dia de sol. 

- A ingenuidade faz o mesmo. E a felicidade também. 

- Lá está, ninguém precisa dessa verdade libertadora e definitiva. 

- Eu preciso. 

Ficam-te bem esses sentimentos.  


P.S- Sopra para os meus olhos e impede-me de chorar. Agarra-me na mão e deixa-te estar assim. Apenas cinco minutos para que a dor fininha que me rasga o corpo não se entorne. Mais importante: promete-me que amanhã será um dia melhor. E que a verdade, um dia, vai deixar de doer tanto.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Um século

Hoje tive um acidente e no segundos antes de ter medo, pensei em ti. Farias cem anos se estivesses por cá.  Sejas pó de estrelas, sejas ossos guardados num gavetão do cemitério, hoje abriste-me os braços. Tive saudades tuas. E não tive medo, avô.