sábado, julho 02, 2011

Medo

Não conto nada de ti. Agora sou só eu. Não me interessam as rosas brancas que prendias no cabelo segurando as tranças. A água cai continuamente e finda-se pelo ralo da banheira. Dirias: não desperdices a água. Responder-te-ia: a água está cada vez mais cara, mas não te preocupes que eu depois pago.


Farias uma maldade qualquer em jeito de criança, como desligar o esquentador. Eu sorriria e seriam assim os nossos os dias até quando a água parasse de jorrar nesta casa de tostão enforcado pelo sacrifício dos sonhos difíceis. Queríamos ficar juntos e aqui.

Nunca gostei muito de ti até me estalares o coração. Quase que me afogo na água da banheira, pelo que poderei ser honesto e revelar, que não foi o amor ou a paixão que nos juntou. Era mais certa a vida contigo. Só isso. Tão certa, senti eu quando dissemos o sim. Ainda mais, quando te agarrei a mão com força e te deixei morrer.
Dói-me o amanhã porque tu não estás. A água já nem sequer pára em mim. Deixa-se ir no tempo das pequenas coisas que foram-se ausentando de mim. Como o sorriso que se foi desgastando em esgares esforçados. O depois de amanhã será então tenebroso. E o depois mete medo.


Mergulho na água morna e deixo-me ficar.

6 comentários:

Ana Ganga disse...

Está maravilhoso!

Maria da Lua disse...

@Ana Ganga, fico contente por saber que as minhas palavras a tocaram de alguma forma. Obrigada.

Ana Duarte disse...

Depois disto, comentar torna-se muito difícil... *

Maria da Lua disse...

@Ana Duarte,muito obrigada. De coração.

Ana Duarte disse...

O prazer é meu. :)

linda david disse...

"Nunca gostei muito de ti até me estalares o coração" - muito belo, mas é sempre assim, não é?