sábado, agosto 30, 2014

Eu matei um homem

Eu matei um homem.

Não me perguntem o que aconteceu, não sei explicar. A arma descontrolou-se. Ou eu fui que não consegui contê-la entre as minhas mãos. Antes disso o primeiro tiro com a pequena metralhadora correra bem. Depois o homem caído no chão. O sangue misturado com a areia. Os gritos da minha mãe. O meu pai ainda com o telemóvel na mão a filmar, porque atrás da objetiva pode ser que tudo ainda seja ficção como no cinema. Alguém me pega ao colo. Os meus calções cor-de-rosa estão também manchados com sangue do homem que eu atingi com o meu tiro. Acertou-lhe na cabeça. Ninguém sabe se vai se resistir ao ferimento. 

Decido que já não quero usar mais tranças no cabelo. Quero cortá-lo curto. Não quero voltar a ser menina, nem a brincar com bonecas novamente. Também não tenho vontade de chorar. Estou num hospital, numa sala colorida entre desenhos rabiscados nas paredes e cubos no chão, há uma senhora que fala devagar comigo para que eu que também fale com ela sobre o que aconteceu. E eu não sei falar. 

Ainda que houvesse uma pequena esperança que o homem pudesse sobreviver, eu soube desde do início que o tinha matado. Por isso, não sei se há muito a dizer, senhora que falas devagar com uma voz mansinha que me enerva. Também decidi que já não quero um irmão. Ou uma irmã. Sou má. Ia acabar por lhe fazer qualquer coisa também. Não me importo se voltar a cair e a esfolar os joelhos, ou a partir de novo o queixo. Juro que não me vou queixar se doer. Vou abrir os olhos com muita força para não chorar. Como agora. 

Eu tenho nove anos. E matei um homem. 



2 comentários:

felipedamo disse...

Não fosse a trágica realidade, eu diria se tratar de uma homenagem a Mersault.

Anónimo disse...

Em que tipo de ser humano se transformará esta menina que aos nove anos vê alguém morrer-lhe por sua "culpa"?