domingo, outubro 28, 2007

Eles

Ele nasceu velho e ela vendeu a alma ao tempo. queria ser nova para sempre. encontraram-se no local do fim. um cemitério quase a fechar. Limparam a lágrima esquecida deixada pelos mortos que nos habitam e tomaram um café na leitaria em frente. Ele quis oferecer-lhe um flor, mas só havia crisântemos na florista. Ela pediu-lhe um beijo. Ele desculpou-se com a barba de três dias e recusou-o. Indignada, ela deu-lhe o braço e propôs-lhe um passeio. Que voltassem ao cemitério. ou como romanticamente ela se referia, o jardim mais bonito das memórias. O certo é que voltaram, ela decorou as frases mais enternecedoras das lápides, as declarações de amor absoluto que vingavam para além do tempo. Esse tempo que ela queria enganar. Para ele o tempo era o passar dos dias. Igual. Ele nasceu velho e ela queria ser nova para sempre. foi só assim, simplesmente que aconteceu. Num dia igual a tantos outros. Ele estava lá, ela também.
Quando o porteiro os expulsou do cemitério ele já queria o beijo, o sorriso que inundava de vivacidade o rosto dela, o calor que se desprendia das entranhas dela. Queria tudo. Queria-a ela. Ela que era apenas a vida em forma de primavera. Flor. no jardim mais bonito das memórias.

* escrito à saída de um desses jardim de memórias, onde ainda dói encontrar o nosso amor.

4 comentários:

delusions disse...

Queria tudo. Queria-a ela. Ela que era apenas a vida em forma de primavera. Flor. no jardim mais bonito das memórias.

gostei de te ler. como sempre.

Sebastiao Moura disse...

Ele nasceu velho, como eu!

K. disse...

Gosto sempre de vir aqui ler-te. Beijo.

Mirabilis (ou Sherazade) disse...

Simplesmente maravilhoso este teu texto...
Parabéns!