domingo, outubro 31, 2010

Não gostes de mim

Pedi-te sempre, não gostes de mim.


Gosta do corpo, gosta do meu riso, da minha falta de juízo, gosta do meu sorriso de menina, da voz ensonada quando acordo, do cigarro que evito, do café da manhã obrigatório, do beicinho do amuo, das unhas encarnadas, do cabelo encaracolado que passo a ferro diariamente, dos relógios que prendem ao tempo.

Gosta do que vês nas fotos e te faz lembrar de mim. Gosta do que a tua memória imagina de mim e inventa de nós como memória persistente. Gosta das cerejas sumarentas que são como palavras entre nós. Gosta dos sonhos que se descobrem nas maçãs do meu rosto. Gostas das estrelas que vislumbras no meu olhar.

Gosta do beijo de sabor intenso a desejo. Gosta da minha imunidade contra paixões e quaisquer outras atracções. Gosta de saber que me vou embora a meio da noite.

Não gostes de mim.

Não me obrigues a dizer que gosto de ti.

4 comentários:

AR disse...

Amei :) vou seguir!

Anónimo disse...

Bem esta mulher é uma máximo, curtia conhecer-te.

Vou seguir esse lindo pensamento

Maria da Lua disse...

AR:Obrigada pelas palavras de incentivo.

Anónimo: Encontramo-no por ora aqui. Acredita que ao leres estas palavras, conheces mais do que alguns que me conhecem. Obrigada pelas tuas palavras

Carlos Machado Acabado disse...

Muito bem esgalhado este fragmento!
Consegues uma coisa rara que é cortar um bocado à corrente do pensamento e persuadir-nos que aquilo de onde o extraiste era realmente a corrente do pensamento...
Jogas como poucos com a sinceridade [e a autenticidade!] da ficção, um talento raríssimo!...